Opinião

Assim se vê a farsa que é o PCP

Leonardo Ralha


O ex-deputado e actual assessor parlamentar comunista Duarte Alves nasceu a 6 de Janeiro de 1991. Já o muro de Berlim tinha caído, confirmando-se que os alemães de Leste estavam mais interessados em dirigir-se para Ocidente do que o inverso, diversos países já se tinham livrado do jugo soviético que, meio século antes, substituíra nazis e afins, e a própria União Soviética entrara no seu conturbado último ano de vida.

Não obstante, Duarte Alves decidiu tornar-se comunista, o que tem particular valor quando sucede em países onde não se é forçado a abraçar tal ideologia. E embora o comunismo tenha soçobrado sempre que aplicado, com as mais trágicas consequências, não é menos verdade que, quase cinco séculos após Juan Sebastián Elcano terminar a circum-navegação iniciada pelo português Fernão de Magalhães, continuam a existir terraplanistas.

Mais desolador, porém, é que Duarte Alves, ex-deputado e actual assessor parlamentar comunista, nascido nos primeiros dias do ano que ditou o fim da União Soviética, tenha dentro de si um arsenal de revisionismo histórico claramente imune aos factos e à lógica. Alinhado com a ofensiva de comunicação com que o PCP tem evocado nas últimas semanas o inegável papel do exército soviético na derrota de Hitler, num rebuscado paralelismo com o regime agora vigente no Kremlin, muito diferente na ideologia e (até ver) não tão asfixiador da liberdade, Duarte Alves entendeu por bem presentear-nos com uma leitura espantosa dos acontecimentos da Segunda Guerra Mundial.

O ex-deputado escreveu no Twitter, promovendo livros das Edições Avante!, que o pacto Molotov-Ribbentrop, que oficializou a partilha da Europa de Leste entre os regimes de Hitler e Estaline, foi um documento “que a União Soviética foi forçada a assinar para poder vencer os nazis”. E, manifestamente embevecido com “os esforços diplomáticos para evitar a guerra” feitos por quem então mandava em Moscovo, Duarte Alves lavrou o seu reconhecimento para com esse “sacrifício enorme, sem o qual não teria sido possível a vitória”.

A este ponto chegámos: um antigo representante eleito do povo português justifica o pacto germano-soviético como um sacrifício necessário, tendo o regime estalinista levado esse sacrifício tão a peito que sacrificou o Exército Vermelho à missão de invadir os países bálticos, a Finlândia (onde a recepção foi comparável àquela que a Rússia teve agora na Ucrânia) e a Polónia.

No limite, pelo raciocínio de Duarte Alves, o “sacrifício enorme, sem o qual não teria sido possível a vitória” - o que já por si reduz a nota de rodapé escrita a tinta invisível todos os soldados norte-americanos, britânicos, canadianos e de tantas outras nações que tombaram nas praias da Normandia e por aí adiante - abrange, provavelmente, a execução pelos soviéticos de 22 mil prisioneiros polacos, militares e civis, abatidos com um tiro na nuca na floresta de Katyn. Um massacre hediondo ao ponto de os nazis autorizarem a investigação da Cruz Vermelha para provar que nada tiveram a ver com os milhares de cadáveres que descobriram, mais tarde, em valas comuns.

É nestes atentados à decência e ao senso comum, mais graves quando vindos de alguém que não é um Miguel Tiago, que se vê a farsa que é o PCP. Uma lástima na nossa democracia, tolerada por ser inofensiva, o que se deve agradecer aos eleitores.

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