Opinião

As segundas-feiras não têm de ser uma merda!

Tiago Mendonça


A frase é o título de um livro que, faz hoje precisamente três anos, apresentei junto de família, amigos e alguns convidados.

Uma coisa que sempre me impressionou é a quantidade de pessoas que são realmente infelizes ou, pelo menos, não são realmente felizes. A vida é mesmo um sopro. Não sou grande adepto daquela frase de viver todos os dias como se fosse o último porque, levado à letra, provavelmente seria mesmo o último dia.

Mas se existe frase que me irrita é o “vamos andando”. Irrita-me mesmo. É raro, e por isso precioso, que alguém nos responda que está muito bem. Que está feliz, realizado, pleno. Aquela conversa de todos os dias serem flores e potes de mel também não existe. Claro que existem dias em que estamos com a neura ou mais em baixo. Mais introspectivos ou mais expansivos. Dias mais azuis ou mais cinzentos. Mas qual a razão para não nos sentirmos globalmente felizes?

E nem sequer entro na questão dos ditames da sociedade que nos empurram para um ciclo dos ratos em que trabalhamos para pagar contas. Essa conversa é uma desresponsabilização. Tirando casos muito graves e, felizmente, pouco comuns de uma doença grave incapacitante, de uma morte precoce, de um familiar que perde a vida e que nos manda para o tapete muitos meses, a maior parte das pessoas têm todas as probabilidades de fazerem aquilo que realmente quiserem na vida.

Boa parte dos nossos empreendedores começaram literalmente do zero. Belmiro de Azevedo ou Soares dos Santos não eram filhos de pais ricos. Cristiano Ronaldo nasceu numa família desestruturada e numa das freguesias mais pobres do país. Dizem que isso será a excepção. Com certeza que só uma ínfima parte de nós atingirá o sucesso profissional e financeiro das personalidades que citei. Mas é preciso chegar a esse ponto para ser feliz?

Insisto: um dos grandes dramas é a desresponsabilização. Temos sempre desculpas. O árbitro roubou a nossa equipa, o professor não gosta de nós, o chefe anda a dormir com a Nádia e por isso é que a promoveu, o João é filho de pais ricos e por isso é que chegou a um patamar de sucesso. É tudo mentira. Com muito raras excepções, nós podemos aproveitar este pedacinho de tempo que aqui andamos como quisermos.

Se queremos dias cinzentos, em que no domingo à tarde já estamos a chorar porque a segunda-feira se aproxima e dá início a uma semana de merda, é connosco. A gritaria do “sextou” também me enerva. O orgasmo das sextas-feiras e a dor de barriga dos domingos à tarde de que falo no livro são coisas que me incomodam. Que loucura é essa de termos dias preferidos?

A discussão, motivada por boas razões, das semanas de quatro dias de trabalho com três de fim-de-semana é a assunção de que não gostamos do que fazemos. Chris Guillebeau, no seu livro “Nasci para Isto”, fala de uma lotaria profissional: fazer algo de que gostamos, para que temos jeito e, finalmente, que nos dá um rendimento suficiente para termos uma vida boa. Irmos a um restaurante sem nos preocuparmos excessivamente com o preço, comprarmos aquele casaco que namoramos há uns tempos, oferecer uma mala à nossa mãe e ir comer umas amêijoas do caraças a uma praia da Costa.

Somos tão maus assim que não conseguimos gerar rendimento a fazer uma coisa de que gostamos e para que temos jeito? Que parvoíce é essa? Porque tem de ser assim? Claro que não é possível querermos tudo. O melhor de todos os mundos. Isso já é estúpido. É verdade que viajo muito, mas o meu carro é de 1997. Também é verdade que gosto de bons restaurantes, mas não pensei numa casa que me fizesse ficar endividado. São opções. Mas são as minhas opções. Não vivo chateado porque o vizinho do lado tem um Porsche ou uma casa melhor. Como agradeço que não fiquem quando digo que em 2019 fui ao Japão, aos Estados Unidos e à Índia. São consequências das nossas escolhas.

E na vida pessoal? Qual é a desculpa para nos arrastarmos em relações falidas? São os coitados dos filhos? Não vamos divorciar-nos pelos filhos. Que conversa é essa? Se queres estar casado, está; se queres estar divorciado, está. Agora, assume a responsabilidade das tuas escolhas.

Acho que se as pessoas vivessem mais naquilo que querem e que são e menos naquilo que deviam querer ou deveriam ser e, sobretudo, se assumissem as responsabilidades pelo facto de terem o total controlo da sua vida, isso seria meio caminho andado para o sucesso ou, se quiserem, para a felicidade.

Quando, há muitos anos, me demiti do escritório de advogados onde estava, não fui dizer mal das pessoas com quem trabalhava. Sempre assumi que era eu que não me adaptava à cultura de sociedade de advogados, que não gostava, que ficava triste. Pareceu-me muito lógico meter-me a andar e pensar numa coisa que gostasse realmente de fazer. Assim foi. E nessa altura estava num patamar bastante debilitado: esgotado, obeso, sem ter terminado o meu ciclo de classificações e com a conta bancária abaixo de zero. Não saí com conforto. Quando me diziam “mas vais fazer o quê?”, a resposta era a mesma: “Mas será que sou tão mau assim que não consigo gerar um rendimento igual ao que me pagam aqui? Seja a vender bolas-de-berlim, a organizar torneios de futebol ou a pescar?”

Deixem as segundas-feiras em paz. E as sextas. Um dia por semana em que sextou e vamos meter fotos no Insta das nossas noites óptimas a troco de semanas horríveis? Que negócio de merda é esse?

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