Opinião

As nuances da Palestina

Alexandre Guerra


Quando comecei a estudar Relações Internacionais, já no longínquo ano de 1995, sabia que, por mais livros que lesse, por mais artigos que analisasse ou por mais especialistas que ouvisse, nunca iria compreender o conflito do Médio Oriente na sua plenitude ou ter uma leitura equilibrada e correcta das suas verdadeiras dinâmicas se não fosse directamente ao terreno. Tinha a noção de que a realidade nos territórios da Palestina era de tal maneira intrincada e complexa, com contornos específicos e únicos, que qualquer tentativa de construção de um quadro analítico teórico estaria condenada, no mínimo, a um desonesto e enviesado exercício intelectual. Tinha consciência de que a teoria acumulada, por mais robusta e sofisticada que fosse, nunca me dotaria do conhecimento necessário para compreender as dinâmicas quotidianas entre duas realidades muito interligadas, enquadradas por factores históricos, sociais, políticos e religiosos de enorme complexidade.

Aos vinte e cinco anos, na altura enquanto jornalista, e em plena intifada de Al Aqsa viajei para a Palestina, onde passei uma temporada (voltaria lá depois). Ali estudei, fiz amigos, entrevistei políticos, convivi com militantes armados, fui acolhido por bons samaritanos nas montanhas de Nablus, dormi em campos de refugiados, visitei os Montes Golã e as Shebaa Farms, andei de Gaza a Haifa, de Jericó a Telavive. Concretizei o sonho de conhecer uma terra tão fascinante, que um dia o poeta inglês George Sandys a definiu como “uma terra onde corre leite e mel”. Sabia que, para entender o poder da atracção milenar da Cidade Velha de Jerusalém, só vendo com os meus próprios olhos, ouvindo os seus sons, calcorreando as suas ruas, falando com as suas gentes de diferentes religiões, sentindo os seus cheiros, confrontando as suas idiossincrasias, vendo as suas fissuras, aceitando as suas virtudes e reconhecendo os seus males.

Sabia que só entenderia verdadeiramente a frustração de milhares de palestinianos se observasse o sistema apartheid montado nos territórios da Cisjordânia, através de checkpoints entre diferentes localidades palestinianas, através de estradas reservadas a judeus com acesso directo entre Israel e colonatos ultra-ortodoxos, através de raides gratuitos das IDF, através do contraste entre o conforto dos colonatos judaicos e as condições debilitadas de muitas localidades palestinianas, algumas delas sem infraestruturas dignas. Sabia que só estando no terreno compreenderia a revolta de uma mãe que queria levar o filho ao médico ou à escola e, sem qualquer justificação, via-se impedida de o fazer pelas IDF ou pela polícia israelita. Ou a raiva sentida por um jovem palestiniano ao ser detido ou agredido pelos soldados ou polícias israelitas por querer, simplesmente, regressar a casa depois das aulas.

Tinha a noção de que só entenderia a manta de retalhos em que se tornou a Cisjordânia se fosse ao território ver o desenho das três zonas administrativas (A,B,C) consignadas nos Acordos de Oslo (II), para saber que, neste momento, mais de 60 por cento do território está sob administração civil e militar de Israel (Zona C). Um território ligado continuamente a Israel, que integra uma grande parte de Jerusalém Oriental e as áreas mais férteis e mais ricas em termos hídricos da Cisjordânia, mas na qual não vivem mais do que 200 mil palestinianos, a maioria dos quais em localidades sem quaisquer condições de habitabilidade e infraestruturas de saneamento. Além disso, nestas áreas, os direitos de construção estão praticamente vedados aos palestinianos, ao contrário daquilo que tem sido a política de expansionismo judaica e de construção de colonatos nas localidades da Zona C. A tão ambicionada transferência destas áreas da Zona C para a Autoridade Palestiniana nunca chegou a efectivar-se e, actualmente, deverão viver cerca de 400 mil judeus ortodoxos e ultra-ortodoxos nestes territórios espalhados por mais de 200 colonatos.

Também nunca entenderia a vida de muitos palestinianos se não conhecesse os campos de refugiados nalgumas cidades onde vivem à margem de uma sociedade já ela própria marginalizada por Israel e pela comunidade internacional. Nunca perceberia o que é a autêntica prisão a céu aberto na Faixa de Gaza, se não tivesse visitado este território por duas vezes, com pouco mais de 40 quilómetros de comprimento e 10 de largura, onde vivem cerca de dois milhões de palestinianos em condições de enorme fragilidade social e económica, sendo que, na maior parte dos casos, a única rede de apoio social vem dos partidos políticos Hamas e Jihad Islâmica, ambos criados sob forte inspiração da Irmandade Muçulmana, movimento pan-árabe com um forte cariz social e que durante décadas no Egipto teve um envolvimento muito profundo com as comunidades locais. Importa referir que a Jihad, criada em 1981, e o Hamas em 1987, resultam, em grande parte, das circunstâncias políticas que se abateram sobre os palestinianos durante essa década. Com a viragem à direita em Israel, entre 1977 e 1992, o Likud governou praticamente de forma ininterrupta, com Governos liderados por Menachem Begin e Yitzhak Shamir, tendo os anos 80 sido dramáticos para os palestinianos a vários níveis. Conflitos no Líbano, na Jordânia, os massacres de Sabra e Shatila, entre outros episódios. Nos territórios ocupados da Cisjordânia e da Faixa de Gaza estala a primeira intifada em 1987, que ficou conhecida como a “Guerra das Pedras”.

E sem ir à Palestina também não me aperceberia o quão a cidade de Belém era um símbolo de integração entre muçulmanos e cristãos, da mesma maneira que Haifa, no norte de Israel, é (ou era?) um exemplo da convivência pacífica entre judeus e árabes israelitas, uma cidade progressista que se orgulha dos seus valores e princípios. Mas sem ir à região também nunca sentiria os receios de um qualquer cidadão israelita, sentado numa esplanada entregue à sorte da lotaria da vida, nunca sabendo quando chegaria a sua hora de ser alvo de um rocket ou de um atentado suicida. Relembre-se que os atentados suicidas foram uma realidade muito presente nos anos 90 e ainda mais durante a intifada de al Aqsa (2000-2005). Para se ter uma ideia, e segundo os números que consegui apurar, nos anos 90, sobretudo no período a seguir aos Acordos de Oslo II (1995), morreram cerca de 120 israelitas, em 14 ataques suicidas perpetrados maioritariamente pelo Hamas, através do seu braço armado, Brigadas Izz ad-Din al Qassam, e pela Jihad, pelas mãos das Brigadas al Quds. Esta prática intensificou-se brutalmente durante a intifada de al Aqsa, que se iniciou em Setembro de 2000. Até 2005 foram realizados mais de 130 atentados suicidas, provocando mais de 600 mortos em Israel, com as Brigadas de al Aqsa, ligadas à Fatah, a contribuírem também para esta mortandade. Historicamente, foi Fati Shaqaqi, um dos fundadores da Jihad, quem pela primeira vez, nos anos 80, falou na possibilidade de serem utilizados mártires na luta contra Israel. A partir de 2006/2007 praticamente deixou de haver atentados suicidas, ao contrário do uso de rockets por parte do Hamas, a partir da Faixa de Gaza, e do Hezbollah, desde o sul do Líbano.

Só estando no terreno é que é possível compreender os receios e os medos de uma parte da consciência colectiva judaica, que se sente rodeada de inimigos, num Estado em que a zona mais estreita de profundidade estratégica tem apenas 14 quilómetros, e que acredita convictamente que do “outro lado” existem algumas correntes (minoritárias, note-se) que continuam a acalentar o sonho de “empurrar os israelitas para o mar”. Um Estado, apesar de tudo ainda marcado, pelas três guerras que travou com os países árabes (1948, 1967 e 1973). Factores que reforçam uma certa psicose que perpassa uma parte da sociedade israelita, que lida no seu quotidiano com actos e gestos algo perturbadores para um qualquer cidadão europeu. Basta ir a uma simples esplanada israelita ou a um restaurante para se perceber o nível de militarização da sociedade hebraica, onde facilmente se vêem jovens militares fardados, sempre acompanhados da sua arma, numa convivência natural com os civis e crianças. Muitos destes jovens, a quem é privada uma parte da sua juventude para servir nos territórios ocupados, acabam por ficar com marcas emocionais que condicionam a sua forma de verem o “vizinho” palestiniano. E quando digo “vizinho”, é importante ter a noção da proximidade territorial entre os dois povos. Por exemplo, de Ramalhah a Jerusalém é pouco mais do que 20 quilómetros, da cidade de Gaza a Telavive não chega a 80 quilómetros. Além disso, em períodos de maior acalmia, é há um forte fluxo diário de trabalhadores palestinianos da Cisjordânia para Israel. Importa ainda saber que mais de 20 por cento da população israelita é árabe, muita dela com ligações familiares à Cisjordânia e Faixa de Gaza. Aliás, a título de curiosidade, as três irmãs do líder máximo do Hamas, Ismail Haniyeh, são cidadãs israelitas há muitos anos, tendo inclusive alguns dos seus filhos já servido nas IDF.

No terreno constata-se também o quão progressistas são muitos sectores da sociedade israelita, alguns deles muito activos ao longo dos anos a exigir a retirada dos colonatos judaicos da Cisjordânia. Aliás, de ambos os lados, existem movimentos e pessoas envolvidas em lutas por melhores condições de vida e por uma solução de estabilidade para ambos os povos. É certo que as franjas radicais das duas sociedades, ora que se apresentam sob a forma Política, ora munidas de uma herança histórico-religiosa que lhes dá uma aura quase divina, são uma evidência impossível de contornar e que, lamentavelmente, continuam a ditar os desígnios dos dois povos. Mas a maioria anseia por uma vida normal. A maior parte dos israelitas não vive sob os ditames da Promessa da Terra Prometida que Deus fez a Abrão ou na obsessão de um dia verem reconstruído o Terceiro Templo de Jerusalém. E sim, a historia palestiniana é traumática, mas a maioria dos palestinianos não vive rancorosa com a traição britânica da Declaração Balfour de 1917 e muito menos quer “empurrar os israelitas para o Mediterrâneo”.

Edward Said escreveu um dia que o orientalismo e o anti-semitismo moderno tinham raízes comuns. Penso que o autor com isso quis dizer que se tratam de construções mentais exteriores à vivência dos povos árabe e judeu, feitas a partir de ilusões, percepções, preconceitos, estigmas, dogmas, ideias preconcebidas, que acabam por criar um turbilhão de discussão e ódio. É curioso constatar que as inúmeras considerações teóricas e políticas que decorrem dos modelos de análise exteriores ao conflito e à vivência no terreno, e que vemos agora diariamente plasmados amiúde na imprensa e redes sociais, muitas vezes não têm qualquer eco no quadro racional e motivacional de um simples cidadão palestiniano ou israelita. De certa maneira, o mundo exterior continua a olhar para o conflito israelo-palestiniano através de lentes desfocadas, escapando-lhe as nuances do terreno, perpetuando, assim, convicções pessoais inabaláveis e posições de princípio inamovíveis que vão alimentando uma ideia de rivalidade ancestral dos tempos bíblicos entre palestinianos e judeus.

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