Opinião

As notícias da morte da IL têm sido claramente exageradas

Nuno Santos Fernandes


A curta história da Iniciativa Liberal (IL) já está cheia de episódios em que muitos se apressaram a declarar o nosso fim. Quando o primeiro presidente, Miguel Ferreira da Silva, se demitiu, parecia claro que este sonho tinha chegado ao fim. De seguida elegemos o Carlos Guimarães Pinto e o partido afirmou-se ideologicamente e na comunicação pública como um movimento com uma cultura distintiva e refrescante. Elegemos o nosso primeiro deputado e o Carlos Guimarães Pinto demitiu-se logo depois, e novamente nos decretaram o fim iminente e a desagregação interna. Não podiam ter-se enganado mais.

O João Cotrim Figueiredo conseguiu consolidar a credibilidade do partido e afirmou a IL como a verdadeira alternativa ao socialismo do PS e do PSD. Com o anúncio da sua demissão e com o ambiente combativo da convenção, parece que o coro de notícias sobre a morte da IL subiu de tom. Primeiro, foi a demissão inesperada. Depois, o surgimento de duas candidaturas concorrentes dentro da sua comissão executiva.

O anúncio de que o processo eleitoral iria ser auditado (na realidade, o que foi contratado foi um processo de consultoria para apoio à comissão eleitoral do partido, aprovado por unanimidade entre todas as listas concorrentes à eleição, e não uma auditoria) foi visto como uma prova de conflito e desconfiança interna.

Finalmente, a forma assertiva, aguerrida e, por vezes, até visceral como decorreu o debate foi lida como a demonstração pública da guerra interna. Não vou fingir que gostei do tom ou do conteúdo de todas as intervenções – houve muitas que poderiam ter dito o mesmo com outro tom ou outras palavras –, mas, como é costume dizer, entre dois liberais há pelo menos três opiniões: a de cada um e uma terceira que emana do seu debate. E, para ser sincero, já tinha saudades de política com paixão e entusiasmo – do autêntico, não do empacotado recomendado pelas agências de marketing político. E disso não faltou nesta convenção.

Um tema que levantou especial polémica foi o confronto entre uma visão mais conservadora, corporizada pela Lista B, e uma visão mais progressista, presente de forma transversal nas restantes listas, com algumas leituras de que se pretendeu cancelar esse posicionamento mais conservador. Aqui importa ver que na primeira entrevista que deu, o cabeça-de-lista da Lista B afirmou que se opunha e pretendia impedir que a IL participasse em movimentos ou manifestações por ele vistas como excessivamente progressistas – ou seja, partiu daqui a ideia de que pretendia “cancelar” essa visão dentro da IL. Ideia que veio a ser reforçada pela moção número cinco, que pretendia eliminar as páginas das redes sociais dos jovens liberais que têm abraçado estas causas mais progressistas.

Estas posições alimentaram um debate inflamado, com alguns episódios mais extremos, mas o que no fim resultou claro foi que, sendo a visão mais conservadora minoritária, não deixa de ter voz no partido – aliás, conquistou quatro mandatos no conselho nacional, onde será ouvida. Houve até um membro que, de forma mais explícita, afirmou o que a vasta maioria sentia: podemos discordar da opinião de qualquer pessoa, mas devemos sempre lutar para que essa pessoa tenha o direito a exprimir a sua opinião.

A IL definiu claramente o seu posicionamento político, desde o primeiro momento, como um partido liberal de centro que defende a liberdade política, social e económica. Nunca aceitaremos uma cultura de cancelamento, venha de quem vier, e isso ficou claro nesta convenção.

Estes episódios mais coloridos vão, no mínimo, contribuir para a notoriedade da IL, que é o primeiro desafio que um partido em afirmação tem de vencer.

Depois de um primeiro dia mais visceral e com os ânimos mais exaltados, em que se evidenciaram as diferenças, o segundo dia teve, desde a sua abertura, um tom mais conciliador e construtivo, dando o primeiro passo rumo à união que se consubstanciou no discurso de vitória de Rui Rocha, que soube de imediato apelar a essa união.

Se formos à essência, acredito que a convenção correu exactamente como devia: foi um processo eleitoral transparente e democrático, acompanhado por representantes de cada uma das 16 listas candidatas aos diferentes órgãos e por um representante da mesa da convenção que não era candidato em nenhuma lista. A consultoria externa assegurou não só a transparência interna como a verificação por entidade terceira dos diversos processos críticos da eleição e mostra que a IL não tem medo de ser escrutinada; pelo contrário, está empenhada na melhoria contínua dos seus processos e na validação da sua democracia interna.

As próprias críticas aos atrasos e alegada desorganização não consideraram que a IL tem convenções plenárias – os 2.300 inscritos são membros de base, a vasta maioria sem qualquer experiência política, que pela primeira vez são convidados para a casa da democracia do seu partido. Não são delegados engajados nas estruturas locais e conhecedores dos meandros, são membros de base que estão a aprender como se faz, tal como a própria organização. E sim, foi demorado, houve atrasos, os planos derraparam – a democracia é um processo demorado e exigente –, mas nenhum liberal abdica da democracia em favor da expediência.

Fez-se a discussão. Ouviram-se as críticas. Votou-se e todos os eleitos puderam ler nos resultados a mensagem dos membros: confiam claramente na continuidade, mas querem que o partido também olhe para os membros e melhore os seus processos internos.

Temos um caderno de encargos exigente. Mais uma vez teremos de provar que as notícias da nossa morte não só estão claramente exageradas como, pelo contrário, este é mais um passo na afirmação da IL como a alternativa ao bipartidarismo que nos tem conduzido à estagnação.