Opinião

As mães também são filhas

Teresa Rebelo Pinto


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Quando uma mulher deixa de estar grávida e traz o seu bebé ao mundo, instala-se um verdadeiro carrossel de emoções e acontecimentos. A aventura que começou com a vivência - mais ou menos idealizada - de uma gravidez, continua nesse momento a um ritmo absolutamente alucinante.

Seja qual for o contexto em que ocorre um nascimento, é sempre uma altura de grande intensidade para todos. Em primeiro lugar para o bebé, mas também para a família que o acolhe, em especial as mães.

Apesar da baixa natalidade atual, as mães não são uma espécie em vias de extinção. Elas reinventam-se a cada momento em que experimentam a maternidade. E a verdade é que todas as mães são filhas e é essa a raiz da sua veia materna.

Como é que as mulheres passam então do papel de filha para mãe?

Começa quando são pequeninas, claro. Quando uma mulher nasce, já traz consigo um real potencial de fertilidade, bem como um conjunto de expectativas quanto às suas escolhas de vida. Um dia, esta filha pode vir a tornar-se mãe, e esta é uma premissa que vai acompanhá-la ao longo de todo o seu crescimento. De forma mais ou menos consciente, família, amigos e professores vão colaborando nesta construção em que uma filha pequenina caminha até se tornar uma filha crescida, transformando-se eventualmente numa filha que também já é mãe. Escusado será dizer que uma das principais figuras que intervém neste percurso é a sua própria mãe.

Se pensarmos bem, todas nós tivemos algo a dizer sobre o nosso potencial materno: “Quero ter pelo menos cinco filhos.”

“Juro que nunca vou ter filhos!”

“Gostava muito que o meu primeiro filho fosse um rapaz.”

“Se tiver uma filha vai chamar-se Maria.”

Estas crenças tanto podiam ter pertencido a quatro miúdas diferentes, como ter sido ditas pela mesma pessoa, em diferentes fases do seu desenvolvimento.

Mais tarde, já com o rei na barriga, as futuras mães são levadas ao colo por quem se cruza com elas. É o nosso inconsciente coletivo que nos alerta para a necessidade de proteger os mais vulneráveis, como é o caso de crianças e grávidas. Lembro-me até uma vez de ver uma senhora zangar-se com uma grávida na fila de supermercado, já que ela não quis usar a sua prioridade e passar à frente!

Durante a gravidez, o corpo inunda-se de hormonas que preparam a mãe para adotar o filho, filha ou filhos que aí vêm. Na altura do parto, o cérebro da mãe liberta grandes quantidades de oxitocina, também conhecida por hormona do amor, o que vai facilitar uma relação de proximidade entre mãe e bebé. No fundo, se tudo correr bem, a recém-mãe vai sentir um turbilhão de sentimentos diferentes, designadamente uma vontade inabalável de proteger aquele filho. A futura avó, mãe desta grávida, sentirá exatamente o mesmo pela sua filha que acaba de se tornar mãe.

Por outro lado, já com o bebé nos braços, as mães também se sentem um bocadinho bebés. Precisam de mimo e de cuidados, tal e qual os seus filhos. É essa a principal função do pai e restante família nessa fase: tomar conta da mãe para que ela tome bem conta do recém-nascido.

À medida que o tempo passa, as mães vão saindo progressivamente do seu papel primordial de filhas, trazendo sempre a sua memória de filha. Não deixa de ser engraçado quando, por exemplo, ao pensar numa música para adormecer o vosso filho se lembram daquela canção que vos embalou vezes sem conta, e que embora já nem a conhecessem sabiam a letra toda de cor. Ou quando partilham com os avós um vídeo dos primeiros passos desajeitados do vosso bebé e descobrem que afinal foi tal e qual assim que também aprenderam a andar.

Há qualquer coisa de transcendente na maternidade, sobretudo a possibilidade de revivermos o papel de filha ao mesmo tempo que nos construímos lentamente como mães.

*Psicóloga, certificada em Sono pela European Sleep Research Society. Fundadora da Clínica Teresa Rebelo Pinto – Psicologia & Sono, onde coordena uma equipa de psicólogos do sono.