Opinião

As ambições de Macron

Alexandre Guerra


Como qualquer presidência rotativa do Conselho da União Europeia (UE), também a francesa é ambiciosa. Demasiado ambiciosa para um semestre. Como aqui escrevi há uns meses, este modelo de presidência rotativa faz pouco sentido nos actuais moldes da UE e pouco mais é do que um manifesto político por parte de quem a assume em determinado momento. É nessa óptica que devem ser interpretadas as três prioridades estratégicas da presidência francesa, que se iniciou a 1 de Janeiro: uma Europa mais soberana; um novo modelo de crescimento económico europeu; uma Europa mais humana. Seria difícil encontrar proclamações mais vagas e genéricas do que estas; no entanto, elas reflectem o pensamento geopolítico do Presidente francês, Emmanuel Macron, em relação ao papel da UE no mundo. Não é seguramente uma visão que se concretize em meio ano; porém, será uma mensagem que Macron reiterará insistentemente nos próximos meses, em linha com o que tem vindo a defender nos últimos anos. A ideia é forjar um paradigma político que servirá de referência para a UE nos próximos anos.

Ao falar de uma Europa mais soberana, Macron está, na verdade, a falar de uma Europa mais segura, ao apelar a um reforço do espaço Schengen e da vigilância das fronteiras, conciliando-o com uma política de migração e de asilo mais clara e eficaz. Refere-se ainda à necessidade de a UE investir na sua política de segurança e defesa, assim como no reforço do seu papel diplomático de interlocutora privilegiada com os seus vizinhos, nomeadamente, através da promoção de acções de desenvolvimento e de estabilidade nos Balcãs ocidentais e da revitalização da relação com África. No que toca ao segundo pilar – sobre a necessidade de um novo modelo de crescimento económico –, é, na prática, uma resposta às fragilidades industriais europeias expostas com os problemas criados pela pandemia. Por isso, e além dos habituais objectivos de uma economia mais sustentável, assente na inovação e no digital, especializada e com melhores salários, Macron faz uma espécie de regresso ao passado, confrontado com uma evidência: a necessidade de fazer da Europa novamente uma “terra de produção” industrial. Ou seja, chegou a altura de a Europa começar a pensar em voltar a ter fábricas, cuja produção pode ir dos chips às máscaras cirúrgicas, passando por aço ou materiais de construção. O último pilar fala numa “Europa mais humana”, que ouça as preocupações dos europeus e que se reja pelo primado da lei e dos valores europeus.

Estas três grandes “ambições” da presidência francesa do Conselho da UE são, efectivamente, as ambições de Macron que, após a saída de cena de Angela Merkel, se assume em solitário, entre os seus colegas do Conselho Europeu, como o timoneiro europeísta. No entanto, apesar das metas extremamente ambiciosas, Macron não vai poder dedicar-se à presidência europeia a cem por cento porque, pelo meio, tem umas eleições presidenciais para disputar, que o obrigarão, durante umas semanas, a “desligar-se” dos temas mais europeus. Já agora, refira-se que, por definição, umas eleições nunca estão ganhas à partida – um princípio em política que poderá colocar de sobreaviso os europeístas mais convictos. Para estes, seria difícil imaginar, neste momento, uma Europa sem Macron. De acordo com as sondagens, esse cenário estará afastado, mas há sempre uma possibilidade, por mais remota que seja, de a Europa, num espaço de poucos meses, ficar sem os dois principais protagonistas do projecto europeu nos últimos anos. Como referi, é muito pouco plausível que isso venha a acontecer, devendo Macron conseguir a reeleição e ter pela frente mais cinco anos para alcançar as suas “ambições”. Porém, só o conseguirá se o eixo Paris-Berlim continuar devidamente oleado – e, até ao momento, ainda não se sentiu grande entusiasmo europeísta por parte do novo líder alemão, Olaf Scholz.

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