Opinião

Argumentário breve para os socialistas

Ascenso Simões


1. Não havia, nem há, um só português que quisesse estas eleições. No meio de uma grave crise sanitária, económica e social, foi uma irresponsabilidade não ter sido possível aprovar o Orçamento na generalidade e negociar o que havia a negociar na especialidade.

Os partidos à esquerda do PS provocaram o derrube do Governo sabendo bem que estávamos em presença do Orçamento mais à esquerda de todos os que foram aprovados desde 2016. Devem, por isso, os eleitores de esquerda penalizar estes partidos, dizer do seu descontentamento profundo.

Há manifestos para que se retome uma solução de esquerda plural. Não é possível. O tempo exigente que vivemos, as nossas obrigações internacionais, a credibilidade do Estado não podem subjugar-se a reivindicações inaceitáveis e que seriam reincidentes.

2. Perante esta realidade, o PS só pode pedir uma maioria absoluta. Porque é a única forma de continuarmos a recuperar Portugal sem pormos em causa tudo o que conseguimos.

Mas essa maioria absoluta é possível? Todas as sondagens dizem que o PS tem sempre mais do que 38% dos votos. Isso daria entre 108 e 110 deputados, a seis ou oito deputados dessa maioria absoluta. As mesmas sondagens dizem que o PSD, a IL e o CDS, todos somados, dão os mesmos 38%, mas muitos menos deputados, fruto da dispersão dos votos.

A história diz-nos que os governos de coligação das direitas, entre 1980 e 1983, entre 2002 e 2005, entre 2011 e 2015, ou não terminaram as legislaturas (em 1983, até foi necessário chamar o FMI) ou fizeram das políticas mais danosas de que há memória. E há ainda a dependência do Chega, que marcará de forma grave as políticas destes partidos.

É por isso que não se coloca a necessidade de uma resposta à pergunta, insistentemente feita, de se saber se o PS viabiliza um governo do PSD. Neste momento, esse governo das direitas não é possível, não está no horizonte.

3. Há uma imensa massa de portugueses que votam ao centro. Quem representa o centro político? Desde 1995 que esse espaço é assumido pelo PS.

Esta campanha mostrou bem as diferenças. Desde o fim do SNS tendencialmente gratuito (ver projecto de revisão constitucional do PSD) à privatização de uma parte da segurança social, pondo em causa as pensões futuras (ver programa eleitoral do PSD) e até à prisão perpétua mitigada (ver debate Rui Rio/André Ventura), tudo isto encosta o partido de Rio ao que de mais neoliberal existe e a uma visão arcaica da nossa sociedade. Nenhum português moderado compreende estas posições do PSD e, por isso, deve negar-lhe o seu voto.

4. Perguntam os portugueses da classe média o que lhes vai acontecer. Basta olhar para as políticas fiscais de Rio. Primeiro, a descida do IRC, que 40% das empresas já não pagam, e, lá para o fim da legislatura, a descida do IRS. Ao contrário, o PS quer a descida do IRS para fixar os mais jovens, para aumentar poder de compra, e apoios fiscais só às empresas que mais emprego criarem e que melhor promoverem a transição climática e digital. Também aqui é o centro que vincula a política do PS. Mesmo os eleitores da direita europeia, com preocupações sociais e ambientais, entendem as opções do PS e o seu acerto, e também lhes deveremos pedir o seu voto.

5. Ao fim destes seis anos de governo, o PS e António Costa nunca conseguiram aplicar o seu programa. Primeiro, foi necessário reganhar a energia perdida no tempo da troika, recuperar a confiança e retomar os rendimentos; depois, veio a pandemia e o Governo fez o que tinha a fazer: preparar uma resposta, trabalhar dia e noite para estar à altura do que os portugueses lhe pediam. Cumpriu. Porém, Costa merece ter quatro anos para, finalmente, acelerar a transformação do país, fazer com que o nosso crescimento supere os 3% ao ano, que a nossa economia se afirme mais competitiva, que os rendimentos se aproximem ainda mais da média da União Europeia.

6. A comunicação social diz que António Costa está cansado. Todos sabemos que a comunicação social usa e deita fora e, por isso, quer outros protagonistas para também usar e deitar fora. A comunicação social alemã fez, durante década e meia, o mesmo tipo de análise sobre Merkel, e não adiantou. O que importa não é dizerem que há cansaço, o que importa é que os portugueses vejam no chefe de governo a experiência e a credibilidade para guiar o país. E há uma outra exigência que, no tempo de hoje, se pede a um PM: mundo, savoir faire. Na direita política, só há um político com essas características: Marcelo Rebelo de Sousa, e esse não pode ser chefe do governo. É por isso que não há um só socialista, batendo o seu coração mais à esquerda ou mais ao centro, que não milite por uma maioria absoluta. Muitos dela terão medo, mas viveremos medo maior se o país entrar na ingovernabilidade perante os graves problemas que enfrentamos. Governos de dois em dois anos só farão de nós mais pobres, seriam uma desgraça que pagaríamos muito caro.

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