Opinião

Aquilo que acontece entre quatro paredes

Leonardo Ralha


Em Portugal existe uma enorme e persistente tentação de ignorar aquilo que acontece entre quatro paredes. Elevada ao tipo de tradição que não convém candidatar a património imaterial da humanidade, bastando manter-se como um mandamento implícito, essa característica ajudou a que a violência doméstica se encrustasse na não raras vezes estranha forma de vida seguida neste nosso rectângulo.

A mesma tradição também se aplica aos crimes sexuais. Apesar de haver predadores que se escondem na noite existente nas suas mentes eclipsadas – ainda que o sol esteja bem alto – à espera da vítima cujo medo, dor, dano e incompreensão perante o que lhe sucedeu são, pelo menos, tão desejados quanto a satisfação de instintos selvagens, a verdade é que grande parte das mulheres (sobretudo, embora também haja homens) alvo de crimes sexuais já conheciam quem os praticou. E o mal que lhes é perpetrado não melhora por ter decorrido na cama de quarto que possam ter mobilado em vez de ter lugar no chão de um imóvel devoluto para onde tenham sido arrastadas à força e sob ameaça de algo ainda mais irreversível.

O NOVO poderia ter sucumbido à tentação de ignorar o que aconteceu entre quatro paredes de um imóvel do Barreiro no Verão passado. Mas, em vez disso, a grande repórter Sílvia Caneco fez trabalho jornalístico ao longo de meses, iniciado pela informação da existência de um processo em curso que envolve um representante eleito do povo português, acusado por uma mulher de ter mantido relações sexuais com ela sem o seu consentimento. Procurou todas as informações, contactou todos os envolvidos, cruzou dados e só depois escreveu a notícia que faz manchete nesta edição.

Em nenhum momento o NOVO se atribui o papel de julgar o que aconteceu entre quatro paredes numa casa do Barreiro, numa noite do Verão passado. Apresenta os factos que estão a ser investigados a partir do momento em que uma mulher adulta acredita ter mantido relações sexuais sem consentimento, submetendo-se àquilo que todos sabem ser, recorrendo a eufemismos, um processo muitíssimo desagradável e invasivo de exames médicos e depoimentos que versam o mais íntimo da sua existência. Cabe ao Ministério Público apurar os factos e decidir que rumo tomar.

Mas a presunção de inocência do deputado André Pinotes Baptista e de outros dois homens envolvidos na queixa apresentada não anula que muito mais importante do que o juízo que qualquer um entenda por bem fazer acerca da conduta de qualquer um dos envolvidos seja o risco de suspensão de mandato – devido à moldura penal máxima para os crimes que possam ter ocorrido – que incorre sobre o socialista eleito pelo círculo de Setúbal nas legislativas de 30 de Janeiro e que já exercia mandato parlamentar na legislatura anterior, aquando da ocorrência que está a ser investigada pelo DIAP do Barreiro.

Perante as acusações, que extravasam o reduto da vida privada, não se exige menos às autoridades do que o apuramento total do que aconteceu entre quatro paredes numa casa onde terão estado quatro pessoas numa noite do Verão passado. Não subitamente, e sim no tempo que for necessário para se tratar de uma questão tão séria – e que o NOVO continuará a acompanhar.

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