Opinião

Aprova-se o direito à morte mas não se dá o direito a nascer

Rita Matias


A 10 de Junho era noticiado que uma grávida perdeu o seu bebé por falta de obstetras no hospital das Caldas da Rainha. A 11 de Junho encerrava a urgência obstétrica no Hospital Beatriz Ângelo, em Loures. No dia seguinte juntava-se ao hospital de Loures o serviço de urgência de ginecologia e obstetrícia do hospital de Braga, encerrado também por falta de profissionais de saúde. Já a 13 de Junho eram as urgências de ginecologia e obstetrícia dos hospitais São Francisco Xavier (Lisboa) e do Barreiro-Montijo que fechavam portas desde as 20h00 até às 08h00 do dia seguinte. A esta lista acrescem também, no dia 14 de Junho, as urgências de obstetrícia do Garcia de Orta, encerradas desde as 20h00 até às 08h00 do dia seguinte, e o serviço de urgência de ginecologia e obstetrícia da Unidade Hospitalar de Portimão, encerrado até dia 20 de Junho “devido à dificuldade em assegurar escalas na maternidade e no bloco de partos”. Desde as 05h00 do dia 15 de Junho até às 08h00 de dia 17, as grávidas que se dirijam aos hospitais de Portalegre e Elvas ou ao Serviço de Urgência Básico de Ponte de Sor serão encaminhadas para o hospital de Évora.

Nove serviços fechados em apenas cinco dias. Infelizmente, a previsão é de que esta lista continue a aumentar. Este, que deveria ser um artigo de opinião, apresenta-se como que um boletim clínico de um corpo com vários órgãos em falência. Ao longo dos próximos dias poderiam até encerrar simultaneamente todos os serviços de ginecologia ou obstetrícia e tamanha desgraça não se equipararia à falência maior: a falência da classe política. Uma classe política que na mesma semana em que aprova, na Assembleia da República, o “direito” à morte, não é sequer capaz de assegurar o direito primeiro: o direito a nascer. Uma classe política que desce avenidas a proclamar que somos uma sociedade evoluída porque podemos acabar com a vida intra-uterina, mas que promove a vida com cenários e respostas sociais de terceiro mundo.

A natalidade, a maternidade ou a parentalidade são prioritárias só no papel. Líamos no programa de governo que constituíam o segundo pilar de desafios a que o Governo se propunha responder. Mas que resposta deu a este Serviço Nacional de Saúde exaurido, com profissionais de saúde a fazerem escalas desumanas? E que resposta deu às mulheres que elaboram um plano de parto, sonham com o momento em que vão trazer ao mundo uma nova vida e acabam, muitas vezes, “excisadas” porque “não há tempo para a dilatação” e o parto “humanizado” tem de ser acelerado para que possa vir “a próxima”? A prevalência de partos instrumentados, cortes dos tecidos vaginais ou manobras dolorosas para a mulher em Portugal é três vezes superior à média europeia. À falta de cuidados médicos adicionam-se todas as experiências de violência obstétrica em que, sempre que é alegada a falta de recursos ou de tempo para aquele parto, o responsável é só um: o Estado.

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