Opinião

António Houdini Costa

Onde se reporta a reunião de aprovação do plano Famílias Primeiro.

Manuel Soares de Oliveira


A reunião do Conselho de Ministros já tinha começado há dez minutos quando a porta se abre e entra Marta Temido. O dr. Costa, com a bonomia que o caracteriza, comenta:

– Já nem me lembrava que ainda faz parte deste conselho. A sra. ministra não se tinha demitido?

– Mas o sr. primeiro-ministro pediu-me para ficar mais uns tempos. Agora, a recibos verdes.

– Tem razão. Entre, entre.

Discutia-se no conselho o plano contra a inflação. A ministra da Agricultura sugeriu que o plano se chamasse Plano de Apoio a Quem Votou PS. Pede a palavra um dos outros inúmeros ministros, de cujo nome ninguém se lembra:

– Parece-me que, pese embora esse nome seja o que queremos dizer, é um pouco óbvio demais.

Pede a palavra Pedro Nuno Santos:

– Também não gosto. Vai-me criar problemas com os meus amigos mais à esquerda. À conta da história dos aeroportos, já há alguns sonsos que fingem que nem me conhecem. Se continuar assim, qualquer dia, ainda sou barrado no Lux.

Marta Temido vê aqui uma oportunidade de voltar a ser relevante e irrompe pela discussão adentro:

– Também me agrada agradar à esquerda. Que tal deixar de fora os privados? Nem um tostão para os burgueses.

À cabeceira da mesa, o primeiro-ministro começa a fumegar de raiva:

– A sra. ministra-a-dias fará o favor de se abster de opinar. Ponha-se no canto a cantar “A Internacional” e no fim do Conselho chamamo-la para a fotografia de grupo.

Marta, num ápice, passa de Temido a envergonhada e recolhe-se no canto a cantarolar:

- De pé, ó vítimas da fome, de pé, famélicos da terra.

Abrem-se as portas do armário e de lá sai o inafundável Eduardo Cabrita:

– Posso sair? Não há nenhum jornalista presente?

O primeiro-ministro tranquiliza-o e aponta-lhe a cadeira que nunca deixou de ser sua.

– Ó amigo Eduardo, sente-se connosco. Os seus conselhos são sempre bem-vindos.

– Pois, estava a escutar a vossa discussão e tenho um nome ideal para esse plano: Plano de Ajuda às Famílias.

Ouvindo esta sugestão, Pedro Nuno Santos, o woke de plantão, fica preocupado com o politicamente correcto e comenta:

– Acho o nome Plano de Ajuda às Famílias um nome pouco inclusivo. E os solteiros? Mesmo o termo solteiro deveria ser substituído por parceiros. Poderia ser Plano de Ajuda aos Parceiros que Vivem Juntos e Parceiros sem Parceiros.

Perante o silêncio geral dos outros ministros, o ministro Medina aproveita e intervém:

– Tenho aqui algumas propostas que não comprometem a execução orçamental.

O ministro da Economia e do Mar, António Costa Silva, aproveita a oportunidade para tentar desviar algumas verbas extra para o seu ministério.

– Mas, Fernando, com o aumento da arrecadação de impostos, a execução orçamental não está em perigo. Proponho uma revisão orçamental com a atribuição de verbas extra para cada ministério.

Os restantes ministros olham expectantes e pelo canto do olho para o dr. Costa, para saberem qual a reacção apropriada que devem ter perante esta proposta inesperada. O primeiro-ministro parece não esboçar nenhuma reacção, o que os deixa confusos e sem saber se devem apoiar ou criticar a proposta do ministro do Mar. Sente-se a tensão no ar até que o nosso primeiro sentencia:

– Ó sr. ministro do Mar, para já, vai ficar a ver navios com essa sua proposta. Proponho antes baixar o IVA na electricidade.

O ministro das Finanças fica branco e, incaracteristicamente, levanta a voz:

– Mas, sr. primeiro-ministro, isso é um rombo na arrecadação fiscal e, além disso, baixar um imposto seria contra a natureza socialista. Se começamos agora com estas modernices, não tarda nada aparece aqui alguém a querer fazer reformas no Estado.

Todos os ministros começam a imaginar um conjunto de reformas e um sentimento de horror percorre-lhes o pensamento. O dr. Costa dá-se conta da enormidade que propôs e corrige o tiro:

– O que eu queria dizer é que baixamos o IVA só no primeiro escalão do consumo de electricidade. Anunciamos que o IVA passa de 12% para 6% e a maioria das pessoas ficam contentes, pois não percebem que o IVA é de 23%.

O ministro da Cultura e da Propaganda permanecia silencioso, mas não conseguiu conter uma pequena lágrima de contentamento com a brilhante argumentação do chefe Costa.

O Conselho de Ministros lá continuou e surgiram inúmeras ideias de medidas de apoio, sempre de acordo com a Doutrina Costista de “levo-te as galinhas nos impostos, mas ofereço-te um ovo se precisares”.

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