Opinião

Analfabetismo histórico

Rubina Berardo


Esta semana celebra-se a festa judaica Hanucá, oito dias de festividades religiosas que assinalam a vitória dos judeus sobre a opressão no século II a.C. É também a Festa das Luzes, durante os tempos sombrios que vivemos. Depois de tantos atropelos e crimes sobre o povo judaico ao longo dos séculos, é uma desonra constatar que, hoje, tantos dos nossos concidadãos insistem em ignorar esses factos passados quando misturam a actualidade pandémica com os genocídios que os judeus sofreram.

Com o aumento do movimento antivacinas, também em Portugal nos temos cruzado cada vez mais com o uso da imagem da Estrela de David nas cores e nos traçados usados pelo regime nazi para discriminar judeus durante o Terceiro Reich. Contudo, em vez de dizer “Jude” no centro, usam o termo “não vacinado”.

A comparação racionalmente inexistente e emocionalmente perigosa entre, por um lado, as medidas de saúde pública actualmente em vigor de combate à pandemia de covid-19 e, por outro lado, os crimes contra a humanidade perpetrados sobre o povo judaico pelos nazis é, em si mesma, uma razão para automaticamente desqualificar qualquer argumentação destes quadrantes.

Todos estamos, naturalmente, saturados das limitações impostas pela covid-19. Mas comparar sequer uma fracção do sofrimento do povo judaico, particularmente durante o Terceiro Reich, com os incómodos pandémicos actuais não passa do resultado da disseminação de teorias da conspiração que colocam em perigo a nossa democracia actual. Sejamos todos vigilantes e não toleremos analfabetismos nem científicos nem históricos.

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