Opinião

Amigos para siempre?

Constança Martins da Cunha


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Quando há poucas semanas assisti à mini-série “Chernobyl” (produzida pela Sky UK em parceria com a HBO), não pude deixar de fazer um paralelismo com a central nuclear espanhola plantada junto ao rio Tejo, a cerca de 100 Kms da nossa fronteira (ainda por cima numa zona de risco sísmico) que segundo inúmeros especialistas é uma verdadeira bomba-relógio que há muito deveria ter sido desactivada.

A central nuclear de Almaraz é a maior de Espanha, tem dois reactores e 2010 megawatts de capacidade instalada e o seu primeiro reactor está em funcionamento contínuo desde 1983, pelo que atinge dentro de dois anos o limite máximo de vida útil, como foi reconhecido em 2018 pelo então Secretário de Estado da Energia espanhol, José Domínguez, que se comprometeu a não prorrogar as licenças para as centrais nucleares espanholas quando estas atingissem os 40 anos de vida útil.

Sucede que contraditoriamente a licença de funcionamento de Almaraz que terminava em Junho do ano passado foi renovada pelo governo espanhol, tendo sido autorizado o funcionamento do referido reactor até 1 de Novembro de 2027, ou seja, 4 anos para lá do limite máximo de 40 anos.

Recorde-se que estava inicialmente previsto a central ser desmantelada em 2010, depois em 2020, mas (se a licença não voltar a ser renovada), isso apenas ocorrerá em 2028.

A mais de meia centena de incidentes registados em Almaraz nos últimos dez anos e que, segundo relatórios do Conselho de Segurança Nuclear (CSN) espanhol, afectaram elementos essenciais de segurança, assim como a catástrofe de Fukushima, deviam ter feito soar ininterruptamente as campainhas de emergência portuguesas até a segurança do território nacional e dos portugueses estar salvaguardada.

Acresce que o comportamento irresponsável das autoridades espanholas, que nem sempre comunicam os incidentes ao governo português, constitui um risco acrescido para o nosso país e para os portugueses.

De acordo com a Quercus, um dos incidentes mais graves deu-se em 2008, com a contaminação de 30 mil litros de água com material radioactivo que depois os “nuestros hermanos” lançaram descontraidamente ao Tejo, o que poderia ter comprometido o sistema de fornecimento de água à Grande Lisboa.

A conjugação de todos estes factores impunham e impõem que as autoridades portuguesas actuem de forma a defender intransigentemente os interesses de Portugal e dos portugueses, não sendo aceitável que se curvem perante Espanha como governadores filipinos.

Como bem sabemos, a decisão de desactivar ou não a central nuclear é sobretudo espanhola e de natureza económica mas não pode deixar de ter em consideração critérios de segurança e os interesses de Portugal e os riscos que lhe estão a ser impostos, sendo certo que nada garante que num reactor em fim de vida não se dê uma catástrofe mesmo que sejam cumpridas todas as regras de segurança.

Portugal não pode continuar a fazer o frete aos espanhóis e fazer vista grossa a Almaraz enquanto vai festejando a fraternidade ibérica, estando à vista de todos o risco efectivo de a festa acabar mal em consequência da irresponsável manutenção em operação de uma central nuclear consabidamente obsoleta.

Contra um desastre como o de Chernobyl ou de Fukushima não há remédio nem vacina.