Opinião

Ameaçar com coisas boas

Rui Rocha


Não sabemos qual a intenção das afirmações de Pedro Nuno Santos sobre as consequências de eventual não aprovação do plano da TAP por Bruxelas. Preparar para decisão adversa? Dramatizar para promover a celebração em caso de aprovação? Já veremos. Sabemos é que a generalidade das reacções demonstra que provocou um efeito que não desejava: é cada vez mais consensual que a nacionalização foi um desastre. Mais a sério ou em tom irónico, torna-se evidente que, a cada dia que passa, mais e mais portugueses veriam a liquidação da TAP como um alívio, apesar do dinheiro que já foram chamados a enterrar na companhia e que, de uma forma ou de outra, sabemos que não poderão recuperar. Pedro Nuno Santos não percebeu que estava a ameaçar-nos com coisas boas.

Na verdade, já só praticamente o PS ainda defende o caminho que escolheu. É um mecanismo psicológico a que podemos chamar de escalada de compromisso: a vinculação a uma decisão da qual os socialistas foram os autores não lhes permite ver a realidade e negam-na com cada vez mais força. Ou, então, será apenas hipocrisia e cálculo eleitoral de quem não pode reconhecer o erro cometido nem admitir que, um a um, todos os argumentos que foram utilizados para justificar a intervenção pública mais não eram do que falácias.

Mas, independentemente do que vier a acontecer em Bruxelas, há ainda um outro facto que é óbvio: quando Costa e Pedro Nuno Santos apresentaram o plano da TAP, não tinham sequer certeza sobre a viabilidade jurídica do caminho que escolheram. Há um ano, o Governo anunciava que esperava uma decisão favorável em Março de 2021. Estamos em Dezembro. E as palavras com que Pedro Nuno Santos quer agora condicionar-nos, seja em que sentido for, revelam os perigos de uma aventura para que ambos arrastaram os portugueses.

Precisamente há um ano, o mesmo Pedro Nuno Santos que anuncia a catástrofe se o plano não for aprovado em Bruxelas dirigia-se aos portugueses para lhes prometer que, em 2025, a TAP já estaria em condições de começar a devolver algum do dinheiro ao Estado (sic). Este é apenas um exemplo da arrogância e irresponsabilidade com que foi conduzido o processo. As próximas eleições legislativas, em 30 de Janeiro de 2022, são o momento certo para se fazer um exercício de memória e responsabilizar o primeiro-ministro e o ministro das Infra-Estruturas pelas suas decisões.