Opinião

Alternativa

Nuno Lebreiro


Amanhã, dia 27 de Novembro de 2021, é dia de o PSD ir a votos para escolher o seu novo presidente. A escolha não é trivial, muito pelo contrário: é fundamental e definidora daquilo que os militantes do PSD desejam que o seu partido seja.

De um lado, de Rui Rio, a oferta é o seguimento da sua gestão política dos últimos quatro anos. Uma direcção política que apostou em tentar negociar com o PS (que não quis até hoje negociar com o PSD ou com Rio), em evitar o conflito próprio da oposição democrática (como foi o caso da abdicação dos debates quinzenais na Assembleia da República) e em afirmar uma marca redutora, castradora mesmo, dentro do próprio partido: para Rio, o PSD é um partido que deve ser apenas social-democrata na sua tradição europeia, renegando as suas evidentes correntes, influências e militâncias mais conservadoras e liberais – correntes estas que fazem também o partido desde a sua fundação. Quem discordar do que aqui afirmo pode, entre outras obras, consultar a do prof. Marcelo Rebelo de Sousa “A Revolução e o Nascimento do PSD”, volume 1, para ver como a opinião de Rui Rio sobre o purismo ideológico do PSD não passa disso mesmo: uma opinião, e uma opinião polémica, para ser simpático.

Os resultados da gestão de Rio também estão à vista. Ao renegar a militância do centro-direita na ânsia de conquistar o eleitorado de centro-esquerda, Rio soltou e enxotou o eleitorado mais conservador e liberal. Em quatro anos, três partidos surgiram com força nesse espaço, dois deles com sucesso parlamentar: o Chega e a Iniciativa Liberal, partidos que se preparam agora para eleger grupos parlamentares bem maiores do que aqueles que já têm. No entanto, tal coisa apenas será lógica e natural. Afinal, quanto mais o PSD persistir em recusar o seu papel como grande partido-albergue de todo o centro-direita, mais estes projectos políticos de nicho que vieram ocupar esse espaço abandonado sairão reforçados. Já para o PSD, este esboroar constante de eleitorado para projectos concorrentes apenas poderá representar um perigo e um desafio. Ora, Rio e os seus apoiantes parecem nem sequer se aperceber da situação, menos ainda das suas causas, o que significa que a continuidade de Rio na liderança do PSD apenas garantirá mais força a estas alternativas partidárias – bem como o consequente agravar da situação.

Não admira, pois, que de uma forma ou de outra, todos os adversários torçam para que Rio continue como presidente do PSD. Em particular o PS, coisa que se pode confirmar pelas diferentes entrevistas que responsáveis socialistas deram nos últimos dias, bem como o tratamento com que a comunicação social – sempre tão simpática com o PS e dura com o PSD – agora parece brindar Rui Rio. Houvesse dúvidas e isto deveria bastar para que as mesmas se dissipassem.

Do outro lado, de Paulo Rangel, temos um discurso diferente. Muito claro e concreto – ao contrário de Rio, que fala sempre muito sobre a sua própria clareza e frontalidade, mas que nunca clarifica frontalmente nada –, Rangel trouxe uma lufada de ar fresco ao partido nas suas intervenções, na elevação e educação que emprestou ao debate e, muito importante, no mote “Unir, Crescer, Vencer”, que verdadeiramente resume a necessidade maior do PSD neste momento: tocar a reunir, agregar as diferentes pessoas e o seu natural e democrático pluralismo, recuperar a riqueza intelectual e política do partido, abrindo-o ao centro-direita, unindo e federando, liderando e propondo uma alternativa clara ao Partido Socialista. Fosse porque não quisesse, fosse porque não conseguisse, Rio não conseguiu, em quatro anos, fazer aquilo que Paulo Rangel pôs de pé em dois meses: afirmar-se cabal e inequivocamente contra a governação Costa e PS, garantir que não haverá bloco central e explicar que o PSD é uma alternativa – logo diferente, uma outra escolha, opção ou hipótese, ou seja, representante da possibilidade de uma verdadeira mudança face à governação actual.

Rangel propôs uma estratégia oposta à de Rio, pelo que uma escolha se impõe no partido. Mas, ao mesmo tempo, e também ao contrário de Rio, Rangel já esboçou o tom, a forma e a estrutura daquele que será o seu programa eleitoral. Esta visão para Portugal, forçosamente ainda incompleta e apenas resumidamente materializada, conseguiu, no entanto, passar já algumas mensagens fundamentais como, por exemplo, uma aposta na competitividade fiscal internacional, a sociedade como motor da criação de riqueza, o caso prático da educação no pré-escolar como um alívio para as famílias e mais um passo na igualdade de oportunidades, bem como várias medias concretas apontadas a uma maior autonomia e justiça na gestão do território nacional. Em tudo isto, o PS centralizador, abusador, que em tudo põe a mão em nome das famílias que nunca ajuda, representa o exacto oposto.

No fundo, Rangel apregoa e preconiza a ideia de que o PSD está de volta. Está de volta na sua atitude perante o país – positiva, clara, de ruptura, virada para o futuro. Está de volta perante o PS, como alternativa, oposição, adversário. Mas está de volta também nas suas principais bandeiras: criar riqueza para melhor a distribuir, democratizar, liberalizar, libertar a sociedade do excesso estatista, tudo consubstanciado no mote, tão característico dos antigos tempos de Cavaco, do elevador social – a ideia-base com a qual Rangel alimenta o sonho de quem quer mudar o país.

O regresso a Cavaco não é ingénuo. O PSD de Cavaco foi aquele PSD que conseguiu romper com o impasse do bloco central em 85, destronar o PS de Soares e fazer um conjunto enorme de reformas absolutamente fundamentais que foram capazes de colocar Portugal no caminho do enriquecimento colectivo – através do tal elevador social –, gerando anos de optimismo, crença no futuro, confiança de que o que vinha depois seria melhor que aquilo que era deixado para trás. Politicamente, o país retribuiu com duas maiorias absolutas para o PSD acima dos 50%.

Hoje, o impasse é parecido. O bloco central – informal mas institucional, com Marcelo, bem como parlamentar, com a ausência de alternativa – está aí ao virar da esquina com a quase impossibilidade (veremos) de Costa se coligar de novo com a extrema-esquerda e a disponibilidade, já declarada, de Rio para negociar e viabilizar o PS de Costa. Tal como em 85, o país está, portanto, numa encruzilhada: para a esquerda, mais do mesmo, um lento agonizar de bancarrota em bancarrota, agora apenas impedida pela boa vontade do BCE; para a direita, o estilhaçar deste statu quo e a afirmação de uma alternativa de ruptura que liberte o país rumo às possibilidades que o mundo, mesmo perigoso como sempre, não deixa de oferecer a Portugal e aos portugueses.

Essa alternativa, como é evidente, não é, nem poderá ser, Rio – esse faz parte do problema. Seja o bloco central mais formal, como parece ser a vontade de Rio e de parte do PS, seja o bloco central mais informal, como o foi até aqui, a continuação de Rio à frente do PSD apenas tem como efeito prático a condenação dos portugueses ao caminho único da governação socialista. Por vingança, grande parte do centro-direita votará Chega e IL como protesto.

Mas a verdade é que há uma alternativa. Essa, primeiro no PSD e, depois, no país, é Paulo Rangel. Assim, amanhã, o voto dos militantes não decide apenas a sobrevivência do PSD como o grande partido do centro-direita em Portugal. Em cima disso, porventura mais importante, os militantes do PSD decidem também se Portugal merece uma verdadeira alternativa de governo a António Costa e ao Partido Socialista.

Eu acredito profundamente que os portugueses e o país merecem essa alternativa. Por isso mesmo, amanhã votarei em Paulo Rangel.

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