Opinião

Algarve a Oito Mãos: um país a caminho do abismo

Luís Serra Coelho


A pandemia covid-19 (que ainda não terminou) veio expor várias das fragilidades do modelo de desenvolvimento económico seguido pela Europa. De facto, percebemos da forma mais difícil como a deslocalização da produção mundial para o oriente enfraqueceu seriamente a nossa capacidade de resposta e reduziu fortemente a nossa autonomia. No entanto, perante a guerra na Ucrânia, a pandemia foi apenas o equivalente a uma constipação ligeira no que toca aos efeitos sobre o nosso modelo social e económico. É preocupante perceber até que ponto a velha Europa está dependente do fornecimento de energia a partir de países que nada comungam dos nossos valores mais fundamentais. Veja-se a este propósito um vídeo recentemente divulgado pela Gazprom, colosso russo da área da produção e distribuição de gás natural. Este apresenta uma europa congelada no pico do inverno, um prenúncio bem vívido do que pode vir a acontecer em breve na Ucrânia e nos países mais a norte da nossa União Europeia.

Infelizmente os problemas energéticos são apenas uma parte (importante) do problema. De facto, o aumento do preço da matéria-prima fóssil rapidamente se propagou pelas economias europeias, um pouco à imagem dos fogos que, desgraçadamente, voltaram a fustigar o nosso belo País nos meses de Julho e Agosto. Tal deu origem a uma onda de inflação como há muito não se via nestas latitudes e longitudes. Vai daí, temos o Banco Central Europeu a alterar o core da sua política monetária. Em particular, a partir de 14 de Setembro a taxa de juro das principais operações de refinanciamento passa de 0,50% para 1,25%, um aumento absolutamente histórico e dramático. Por outro lado, a taxa aplicável à facilidade permanente de cedência de liquidez passa de 0,75% para 1,50%, enquanto a taxa aplicada à facilidade permanente de depósito sai dos 0% para se fixar nos 0,75%. Traduzindo agora para português: o custo da dívida vai aumentar consideravelmente, algo que seguramente vai pressionar a tesouraria do estado e de uma parte importante das empresas e, claro, a carteira de todas as famílias que têm algum tipo de crédito contratado com taxa de juro variável.

Este caldo económico é particularmente trágico para o nosso País. De facto, somos uma das economias mais endividadas da zona euro (o destaque aqui vai todo para o Estado). Não crescemos o suficiente, razão pela qual somos constantemente ultrapassados por todos os países que se vão juntando à família europeia, facto que nos atira para o primeiro lugar da liga dos últimos nesta matéria. As nossas famílias têm dos menores rendimentos na Europa e, assim, a população experimenta das maiores taxas de pobreza dentro do nosso bloco económico de referência (já agora, sem as transferências do estado o cenário seria deplorável). A nossa produtividade é das piores entre os nossos parceiros (problema crónico e que parece não estar na agenda dos supostos líderes da Nação), sendo a nossa uma das populações mais envelhecidas do mundo (neste capítulo temos todos de lamentar a perda de muitos dos nossos jovens nos últimos anos, os quais fogem legitimamente do País à procura de melhores condições de vida). Juntemos a este contexto um desencanto geral da função pública (bem ilustrado pelo que se está a passar no Serviço Nacional de Saúde, no Ensino e na Justiça), algo que afecta negativamente o bom funcionamento de muitos aspectos básicos da nossa sociedade, e temos o equivalente a um barco a remos que vai em breve encontrar um furacão de categoria 5.

Perante este cenário o que é que observamos do governo de António Costa? Bom, a semana começou com o anúncio do plano “fisga” de combate aos efeitos da inflação para as famílias. Das várias excelentes medidas trazidas a lume permito-me destacar duas. A primeira diz respeitos aos pensionistas, eleitores fundamentais do PS e que, neste caso, são alvo daquilo que popularmente captamos com a expressão “gato escondido com rabo de fora”. A segunda é o apoio pensado para minimizar os gastos das famílias portuguesas com a sua conta da luz. Nos termos actuais, esta medida constituirá um verdadeiro insulto a todos nós quando passar a ser aplicada na prática. Temos, no entanto, de reconhecer que Costa tinha pouca margem para fazer melhor (poderia, eventualmente, ter feito diferente). Afinal, somos um país pobre, aliás cada vez mais pobre e que caminha pesadamente para um abismo que parece cada vez mais difícil de evitar.

NOTA: Este artigo apenas expressa a opinião do seu autor, não representando a posição das entidades com as quais colabora.