Opinião

Algarve a Oito Mãos – Sustentabilidade: um mito holístico ou o futuro?

André Oliveira


O ser humano não é perfeito. Diria mesmo que somos uma espécie de perfeitas imperfeições em busca de um caminho que nos leve para um mundo ambientalmente sustentável, mais justo socialmente e economicamente robusto. Sem dúvida, nos últimos 100 anos, o mundo evoluiu de forma significativa, e observamos as mais belas inovações em prol da humanidade, denotando uma maior preocupação em preservar o nosso planeta e os seus recursos que tem sido a base do crescimento nas últimas décadas.

Neste caminho em busca da perfeita imperfeição, temos observado que os mais importantes organismos políticos e económicos europeus têm enfatizado inúmeras vezes o termo sustentabilidade em diversos quadrantes. Este termo nem sempre é compreendido pela sociedade na sua magnitude. Se analisarmos as emissões mundiais de CO2, observamos que as 20 maiores economias do mundo (G20) contribuem com mais de 75% de emissões de CO2 na atmosfera. A este enquadramento temos de adicionar questões de pura aritmética: actualmente habitam no planeta 7,9 mil milhões de pessoas e as previsões da ONU é sermos 9,7 mil milhões de pessoas até 2050. O impacto no aumento do consumo será verdadeiramente monstruoso a nível mundial, muito embora os níveis de crescimento populacional na Europa sejam relativamente baixos.

A questão da sustentabilidade energética tem cada vez mais preponderância na estratégia política e económica da Europa (27). Se caminhamos para uma economia mais verde e azul, que pressupõe o uso racional dos recursos energéticos em prol das gerações futuras, para existir um equilíbrio entre a humanidade e o meio ambiente, de que modo esta transição afectará o nosso modo de vida (felizmente, o ser humano tem uma capacidade única de adaptação)?! Será que vai ser uma transição justa, inclusiva, e promover a coesão territorial em diversos quadrantes da população europeia e mundial, principalmente para os países menos desenvolvidos, ou, infelizmente, iremos afunilar cada vez mais as nações? Qual o custo social de uma esquizofrenia verde?

A sustentabilidade energética da Europa abanou com a crise da invasão da Ucrânia, que realçou que um dos pilares estratégicos da nossa independência soberana foi afectado, tendo enormes custos para a população (aumento dos custos energéticos e alimentares). A Espanha e a Alemanha voltaram a reabrir as principais centrais a carvão. Afinal, a sustentabilidade não contemplou uma pequena grande questão: não podemos viver ainda sem gás, petróleo e carvão, muito embora esta conversão para uma Europa independente energeticamente e sustentável tenha de acontecer, caso queira atingir a meta de neutralidade carbónica até 2050.

Esta mudança estratégica tendo o objectivo de neutralidade carbónica até 2050 implica uma mobilização enorme de investimentos, além de uma revolução industrial sem precedentes na Europa. Em que medida esta mudança do modelo económico linear para um modelo económico circular sustentável pode afectar as pequenas e médias empresas? Como podem adaptar-se a uma nova realidade que exige grandes investimentos (sendo o tecido empresarial demasiado fragmentado e de pequena dimensão)? O nosso modo de vida não pode ficar refém de questões geoestratégicas criadas por um dos principais motores da Europa. Somos uma união e deveríamos ser mais solidários, justos e éticos. Não podemos ser a Europa dos ideais escritos no papel; caso contrário, caminhamos para o precipício dos valores, e não para a sustentabilidade do território.

A questão da energia é a base do desenvolvimento económico sustentável, mas a base da nossa sobrevivência é a agricultura. Estes dois pilares não podem ser dissociados. A nível europeu, a PAC 2023-27 contempla a reconversão da agricultura para uma produção sustentável, a montante subscrevendo o PAC e a mudança estratégica positiva em prol das oportunidades rurais e da coesão social. A jusante devemos questionar qual o impacto financeiro/social desta mudança no consumo das famílias portuguesas, isto porque a sustentabilidade obriga a mudanças de gestão agrícola, alterando todo o modelo económico de exploração. É de realçar uma maior preocupação por parte da sociedade portuguesa em consumir o que é nacional, apoiando os produtos locais e dinamizando a dita economia circular.

Os efeitos negativos da crise energética, aliada à inflação, influenciaram imenso o cabaz alimentar mensal, criando imensas dificuldades às famílias portuguesas para terem uma alimentação saudável e equilibrada. Não se esqueçam que o limiar da pobreza aumentou em Portugal e que, sem os apoios sociais, mais de 4 milhões de portugueses viveriam na pobreza. Onde está a ambição política de ter reformas económicas que possam mitigar as desigualdades, porque, sem uma economia dinâmica, não existe justiça social?

Em suma, a sustentabilidade é o presente e o futuro de uma sociedade moralmente justa e preocupada com o futuro, mas também exerce uma enorme responsabilidade política para não aumentar as diferenças sociais entre classes e entre os países desenvolvidos e em desenvolvimento.

NOTA: Este artigo apenas expressa a opinião do seu autor, não representando a posição das entidades com as quais colabora.