Opinião

Algarve a Oito Mãos – Sobrevivemos

Claúdia Vasconcelos


São tempos difíceis estes em que vivemos. Vivemos num tempo em que não podemos ficar doentes, nem sequer podemos ficar grávidas; vivemos num tempo em que foi necessário criar um plano de contingência para o Serviço Nacional de Saúde (SNS), mas em que nos dizem que está tudo bem.

Infelizmente, foi necessária uma avalanche de encerramentos de maternidades no nosso país para que, no fim-de-semana passado, este tema abrisse telejornais em todos os canais de televisão do nosso país. No dia 14 de Junho fui surpreendida pela abertura de um telejornal com a notícia do encerramento da maternidade de Portimão. Lamentavelmente, esta não é uma novidade para nenhum algarvio — repete-se de forma constante nos últimos anos.

Entre encerramentos de maternidades, urgências pediátricas e tantas outras situações semelhantes, os algarvios já se habituaram ao corridinho entre Portimão e Faro. É uma lotaria tentar acertar em que urgência haverá constrangimentos na semana seguinte.

O Algarve tem mais de 450 mil residentes habituais; em época alta do turismo, a população na região aumenta cerca de cinco vezes. O Algarve não tem capacidade instalada na área da saúde para responder aos seus cerca de 450 mil habitantes, nem em número de médicos nem em número de enfermeiros ou, sequer, em número de camas hospitalares. Se não consegue responder no resto do ano, como esperar que responda em pleno Verão?

Segundos os Censos de 2021, o Algarve é uma das duas únicas regiões do nosso país que aumentou o seu número de habitantes desde os últimos censos. Perante esta crise de falta de médicos, a pergunta que se coloca é de quantos médicos necessitaríamos para resolver este problema, mas parece que ninguém sabe dizer ao certo quantos médicos seriam necessários para suprir as necessidades actuais da região. Sabemos que uma grande parte dos médicos da região estão próximos da idade da reforma e que muitos estão acima dos 55 anos, o que limita a prestação de serviços em urgências e horas extraordinárias, por exemplo, e que nos deixa adivinhar um agravamento significativo na falta de médicos nos próximos anos.

Falamos muito sobre o Hospital Central do Algarve (HCA), mas não temos a certeza de que o HCA, um projecto com 20 anos, que há tanto tempo os algarvios esperam ver construído, esteja projectado de forma a acompanhar o desenvolvimento da região do Algarve nos dias de hoje e muito menos no futuro. Será este projecto capaz de responder aos problemas de saúde da nossa região? E de que serve um hospital sem médicos e enfermeiros?

Vivemos num tempo em que um algarvio que tenha um problema de cardiologia sério e que seja da zona do Barlavento terá de garantir vaga para ser transferido para Faro. Saliento que este é um serviço publicamente reconhecido pela sua qualidade mas que, como é óbvio, tem os seus limites físicos tanto em termos de número de camas como de capacidade de atendimento dos seus profissionais.

Vivemos num tempo em que macas se amontoam nos serviços dos nossos hospitais, em que idosos morrem sozinhos, sem que seja sequer possível chegar-lhes, em que um cidadão pode esperar mais de dois anos por uma cirurgia ou por uma consulta.

Vivemos num tempo em que atestar o depósito é um sinal exterior de riqueza, mas se pede a um cidadão que percorra mais de 120 km para chegar à maternidade mais próxima.

Ao viver no Algarve, para garantir acesso em tempo útil a cuidados de saúde, ter um seguro de saúde é um bem essencial.

Vivemos num tempo em que o SNS não é capaz de responder às necessidades da nossa região e em que existe uma clara divisão na qualidade e no acesso a serviços médicos. Existem, por um lado, os que podem pagar um seguro de saúde e com isso conseguem ter acesso a cuidados de saúde condignos, e, por outro, existe quem infelizmente não pode pagar um seguro e tenha de aguardar por resposta do SNS, uma resposta que muitas vezes não chega ou chega tarde. Vivemos num tempo em que um governo de maioria absoluta que já tomou posse há mais de três meses e governou nos últimos anos não deveria ter desculpas para que alguma coisa corresse mal; porém, vivemos num tempo em que a cada dia que passa se torna mais complicado para qualquer cidadão da nossa região sobreviver.

Vivemos num tempo em que se sobrevive no Algarve. É difícil arrendar ou comprar casa. É difícil ir para o trabalho se não tivermos carro e, neste momento, é difícil ter dinheiro para pagar casa, pagar combustível, pagar despesas fixas e, no final do mês, ter dinheiro para comer.

Sobrevivemos, dia a dia, na esperança de que quem nos governa reconheça todas estas dificuldades e compreenda que, de uma vez por todas, temos de mudar mentalidades para que o Algarve e o nosso país saiam do marasmo em que nos encontramos e possamos garantir à geração dos nossos filhos a dignidade que merece.

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