Opinião

Algarve a Oito Mãos – O elefante na loja de porcelana

André Oliveira


O Algarve vive um momento de aumento da procura turística (incontestável). A economia regional, após dois anos de covid-19, tem vindo a recuperar, devido ao aumento da procura e dos preços médios, embora não seja caso isolado na bacia do Mediterrâneo. Porém, a incerteza continua a andar de mãos dadas com este entusiasmo. Sem dúvida, existem muitos desafios para a época turística no Algarve. O mundo está a viver um cenário digno de um filme de Alfred Hitchcock (“Psycho”), aumentos das commodities e produtos alimentares, escassez/aumentos salariais da mão-de-obra (carência de alguns milhares de postos de emprego por preencher). A combinação destes factores terá sem dúvida impactos no resultado de exploração no final do ano. Veremos qual será a performance do P&L da indústria turística 2022 vs. 2019 e de que forma as empresas algarvias se preparam para o próximo triénio.

Mas o tema para que hoje quero alertar e que é pouco falado no Algarve é a estagflação, sem dúvida um elefante dentro de uma loja de porcelana para que a classe política algarvia não mostra sinais de querer alertar a nível regional (andamos a comer gelados com a testa). Contudo, este cenário a curto/médio prazo é uma realidade. Mas, afinal, o que é a estagflação, este “bicho-papão” que pode atormentar a nossa vida? É um termo económico, utilizado pela primeira vez em 1965 por Iain Macleod (político inglês), que alertava para a situação económica da época. É simplesmente a simbiose do aumento da inflação (8,0% IPC – Índice de Preços ao Consumidor) e o indicador de inflação subjacente (índice total excluindo produtos alimentares não transformados e energéticos). Terá registado uma variação de 5,6% (5,0% no mês anterior), registo mais elevado desde Fevereiro de 1993, o IPC (fonte: INE 2022), com o abrandamento da economia e desemprego (pós-Verão será porventura uma realidade diferente). Sem dúvida vai criar uma situação de recessão ou de uma travagem acentuada na recuperação económica, algo que, após dois anos de pandemia e uma guerra/aumentos dos juros pelo BCE, ninguém deseja (vislumbramos uma tempestade perfeita no horizonte).

O último período em que a economia mundial teve uma estagflação foi na década de 70 (crise energética do petróleo), e demorou um ciclo de dez anos a ser ultrapassada. Todos nos recordamos dos impactos negativos da última crise financeira de 2007/08 no nosso modo de vida e as medidas que foi necessário implementar em Portugal para termos a possibilidade de cumprir com as obrigações estatais (devido ao ilusionismo socialista). Neste enquadramento e visão macroeconómica, até o próprio governador do BdP, dr. Mário Centeno, em Fevereiro 2022, alertava numa entrevista à agência Bloomberg para o seguinte: “(...) um cenário próximo da estagflação não está fora das possibilidades que podemos enfrentar”. E o prolongar da guerra na Europa a cada dia que passa valida mais este cenário (risco real de cuja solução ninguém ousa falar, porque exige um sacrifício enorme). Será que a ideologia socialista não sabe gerir um país sem o levar à bancarrota?!

Os indicadores já foram mencionados acima, mas relembro que a dívida pública nacional continua a 127% do PIB, ou seja, 276 mil milhões de euros (mesmo com o ilusionismo socialista). Não podemos ser iludidos com malabarismos, e urge que o maior pacote de apoio comunitário da UE para Portugal, que será operacionalizado via PRR — Plano de Recuperação e Resiliência (santo graal do socialismo para salvar a pátria) e o Quadro Financeiro Plurianual 2021-2027, seja utilizado com um cariz reformista, promovendo a competitividade/produtividade das empresas nacionais a nível internacional. Enfim, são momentos destes que devem deixar-nos preocupados, porque os portugueses estão mais pobres, mas o acordar para a realidade será, porventura, depois de umas férias à beira-mar (não esquecer que, segundo a Pordata, em 2020, mais de 1,6 milhões de portugueses viviam com um rendimento mensal abaixo de 540 euros/mês; 9,5% do total da população vive, assim, no limiar da pobreza). Porventura existiu amnésia política do “grande ilusionista” de Portugal e a inflação e restante cenário não devem ter criado mais pobreza. A vida vislumbrada do castelo de marfim deve ser bela (São Bento).

O day-after do positivismo socialista, neste enquadramento, será sem dúvida um momento digno de uma rave party em que, afinal, o país tem robustez económica e uma performance de crescimento fenomenal (acima da média europeia), e nós continuamos a ver a banda a tocar enquanto o barco se afunda. Quero, assim, terminar com uma frase de Daniel Dennett: “Não há nenhuma maneira educada de dizer às pessoas que elas dedicaram as suas vidas a uma ilusão.”

Eu acredito em Portugal (ou ainda quero acreditar).

Nota: Não se esqueçam que a base da prosperidade social é a economia. Caso contrário, caminhamos para a “Venezuela” da Europa. Já dizia a Dama de Ferro, Margaret Thatcher: o socialismo dura até acabar o dinheiro dos outros. Nesta próxima década é necessário aumentar a competitividade e produtividade das empresas portuguesas no contexto europeu e mundial.

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