Opinião

Algarve a Oito Mãos – Feijoada de Gambuzinos à Costa

André Oliveira


Imaginemos um “maestro” numa cozinha a gerir a sua brigada (equipa de cozinha), com a máxima eficiência, onde a organização hierárquica de autoridade e a responsabilidade para a exigência do cargo necessitam de estar alinhadas como uma verdadeira sinfonia e enaltecer pela positiva o trabalho desenvolvido pela “brigada” fora dos olhares dos hóspedes para os surpreender. Este modelo de gestão hoteleira foi implementado no Hotel Savoy em Londres pelo galardoado chef Georges-Auguste no final do século XIX, após ter feito carreira militar no exército francês.

O nosso digníssimo primeiro-ministro dr. António Costa, fazendo uma comparação governativa, mais parece que tem a cozinha a arder, e o que nos surpreende é sermos brindados com medidas estorricadas que nós, portugueses, sofremos de um velho hábito de comer e calar (o que se passa no seio do Governo entre o Ministério da Economia e o das Finanças, caro sr. primeiro-ministro?). É que, se fôssemos avaliar o serviço público feito na última semana, o seu governo, além de ser classificado negativamente com uma estrela (como é habitual nos últimos tempos), está a criar uma autêntica cefaleia governativa, e quem sofre por esta falta de gestão estratégica governativa é Portugal. É obvio que este governo PS agravou em grande medida o oxigénio das empresas e que a proposta de baixar o IRC, possivelmente, para 17% seria não só justa como daria algum espaço de manobra para os aumentos salariais, a fim de combater os efeitos nefastos da inflação, junto das negociações com os parceiros sociais.

O mundo e, em particular, a União Europeia vive momentos de enorme incerteza e instabilidade não só geopolítica como energética, e o panorama a partir do Inverno de 2022 até final de 2023 será penoso para as economias e as famílias. Neste percurso para o abismo, o nosso estimado ilusionista – e teremos de enaltecer o nosso primeiro-ministro, sendo talvez dos mais brilhantes políticos que existiram em Portugal – inicia um processo de venezuelização em Portugal, e nós continuamos a analisar, por truques de magia política, que tudo está bem e ficará melhor. Mas relembrar o sector da administração pública, com aumentos estratosféricos para a dimensão da nossa realidade, onde em Março de 2022 tínhamos 741 288 funcionários (+1,9% face a Dezembro de 2011, o equivalente a termos, aproximadamente, mais 14 mil novos postos de trabalho numa estrutura pouco digital e em que os tempos de espera não melhoram). Aqui teremos de relembrar o desempenho pouco humanista do Ministério da Educação, por desvalorizar a falta de professores no sistema educativo e por termos um sistema arcaico de atribuição de vagas em Portugal (ser professor em Portugal é uma profissão pouco valorizada, e deveria ser o core do nosso sistema para a transformação económica e social; é no ensino, através dos professores, que a sociedade se desenvolve positivamente; a base evolutiva e geracional tem de ser feita desde o ensino primário).

Não podia deixar de enaltecer um dos grupos de maior preocupação para Portugal. Numa sociedade humanista e justa, compreendemos que os nossos idosos estão cada vez mais desprotegidos, seja no sistema nacional de saúde, seja nas pensões. Assim, este governo socialista de maioria absoluta, além de ter um problema crescente de credibilidade, consegue ludibriar os portugueses pensionistas com um dos maiores aumentos de pensões – mas, feitos os cálculos, eles já compreenderam que é mais um golpe ilusionista e que, na realidade, a médio-longo prazo vão perder poder de compra, já a partir de 2024. Segundo a OCDE, o sistema de pensões em Portugal precisa de se preparar para o rápido envelhecimento da população, fruto de uma taxa de natalidade baixa e do aumento da esperança média de vida. Tendo em consideração que não existe um conselho estratégico nacional a pensar a nação em toda a sua plenitude (social, finanças, militar, economia, educação, para estrategicamente sermos uma nação mais forte a dez, 20 e 30 anos), observamos assim uma nação que caminha até 2050 para que exista um rácio de sete pessoas com mais de 65 anos para cada dez pessoas em idade activa – e, de acordo com os estudos da OCDE, este rácio era relativamente diferente em 1975, de uma para três pessoas. Isto não só trará situações esquizofrénicas no mercado de trabalho como em todo o modelo económico e de financiamento para a área da saúde e pensões. O caminho é cinzento, duro, trabalhoso, mas temos de acreditar em Portugal e numa nova geração que consiga combater o statu quo. São mais de 800 anos de história, mas é necessário olhar o futuro de forma menos classicista e mais contemporânea.

NOTA: Este artigo apenas expressa a opinião do seu autor, não representando a posição das entidades com as quais colabora.

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