Opinião

Algarve a Oito Mãos - Calhou-nos a fava

Claúdia Vasconcelos


Imagine um bolo-rei acabado de sair do forno. Massa morna e tenra, rica em frutos cristalizados e frutos secos.

(Não gosta de bolo-rei? Não há problema, imagine na mesma, vai ajudar no exercício.)

Agora imagine que cada um dos distritos do nosso país tinha direito a uma fatia deste bolo-rei. Para os algarvios, a fatia que nos calharia seria, com toda a certeza, a da fava.

Diz a tradição que quem come a fatia com a fava é quem paga o próximo bolo.

Não encontro melhor forma de descrever o que sentimos na região do Algarve.

Para quem não está familiarizado com a dinâmica da nossa região, aqui acontece mais do que passar férias. No fim do Verão, não fechamos a porta e vamos todos embora. Os algarvios vivem, trabalham, estudam e pagam impostos por cá, ou melhor, pagam impostos de cá e esses impostos vão e nunca mais voltam.

O Algarve é das poucas regiões do nosso país que aumentaram o número de habitantes nos últimos anos. Apesar disso, é uma região onde problemas tão básicos como saúde, educação e mobilidade se arrastam e pioram ao longo dos anos, sem qualquer solução ou investimento do Estado.

O Algarve é das regiões com menos camas hospitalares por habitante, é das regiões com menor número de médicos de família por habitante e é também uma das regiões com maiores listas de espera para todas as especialidades médicas, algumas delas tão sérias como a oncologia. No Algarve morremos à espera de consultas ou de uma cirurgia. No Algarve temos mais de 450 mil habitantes, mais de 200 quilómetros de costa, mas, muitas vezes, só temos uma maternidade ou uma urgência pediátrica de serviço. No Algarve esperamos há mais de 20 anos por um hospital central. No Algarve, se tiver um seguro de saúde, poderá ter a sorte de esperar menos por uma consulta ou cirurgia.

O Algarve é também notícia de forma recorrente pela falta de professores e por turmas com horários por preencher. No Algarve, quem tem dinheiro para pagar um colégio privado sabe que os seus filhos vão ter todas as aulas; quem não tem, espera ter a mesma sorte.

No Algarve, se quiser ir de Vila Real de Santo António a Vila do Bispo terá de utilizar a 125 ou a Via do Infante. Já experimentou? Ora tente ir pela EN125 em pleno Agosto, com um acidente numa zona de pins sem berma, como Lagoa, e veja como corre (e, já agora, imagine um veículo em marcha de emergência).

Então e se quiser andar de transportes públicos aqui no Algarve? Sugiro um percurso de autocarro entre Castro Marim e Faro, que poderá ultrapassar as duas horas e meia, ou um percurso de comboio entre Lagos e Vila Real de Santo António, que demora cerca de três horas. Rápido, não lhe parece?

Poderíamos ainda falar da questão da habitação, da falta de vagas nas escolas (públicas e privadas), na questão da falta de água, da dependência do turismo, e tantos outros temas tão conhecidos de todos.

Serão a fava aqueles que nos governam, os que já nos governaram ou quem quer voltar a governar-nos? A fava são todos eles.

Se quisermos fazer do Algarve uma região mais atractiva para quem cá nasce, vive, estuda e trabalha, é necessária coragem para defender a nossa região. O Algarve tem de ser defendido, não por favas, mas por quem nele acredita. Temos de ter direito a escolher a nossa fatia do bolo. A fava não pode calhar sempre aos mesmos.