Opinião

Além de existir, já agora, viver

Teresa Rebelo Pinto


“Sabe Dra.. é que ultimamente sinto que estou só a existir, não estou bem a viver.”

Uma rapariga de 18 anos fez-me esta confissão. Foi o ponto alto da nossa consulta, em que descreveu de forma tão certeira o que vejo diariamente em mais pessoas do que gostaria de admitir.

Estava apenas a existir, a sobreviver. Faltava aquele bocadinho assim, a sensação de prazer nas pequenas e grandes coisas tinha-se perdido. Não havia motivação para quase nada, o dia-a-dia ia-se fazendo, uma coisa atrás da outra, mais porque “tinha de ser” e não porque sabia bem, dava gozo ou simplesmente porque apetecia. Não tinha vontade de nada. Não sentia entusiasmo com nada. Estava só a existir e isso deixava-a triste e preocupada, já que antigamente era uma pessoa tão diferente.

As palavras desta rapariga mostram claramente que o vazio depressivo vai muito além da tristeza patológica. Nem era uma rapariga particularmente triste, mas a verdade é que deixou de se reconhecer quando estes sintomas apareceram. E piorou ao perceber que este estado se tinha instalado, parecendo ser o seu “novo normal”.

Além de identificar a situação, sendo uma rapariga inteligente e corajosa, pediu ajuda e disponibilizou-se para tratar a sua saúde psicológica. E aqui está mais um mito que é importante desmontar: a depressão não é uma doença das pessoas pouco inteligentes.

Como a intervenção começou cedo, os resultados começaram a aparecer a bom ritmo. Foi recompensador ver esta jovem recuperar aos bocadinhos, mas de forma sólida e amadurecida, a sua relação consigo mesma em cada um dos seus departamentos. A confiança nas suas capacidades, a curiosidade, a vontade de se aventurar pela primeira vez em viagens, cursos e atividades radicais. Enfim, começou a reconhecer-se e a sentir de novo prazer, ânimo e alegria de viver. Uma luz ao fundo do túnel, que afinal estava mais próximo do que parecia.

Embora seja uma das doenças mentais mais comuns, existem ainda muitas ideias erradas sobre o que é, como funciona e como se trata a depressão. Aliás, a maior parte dos seguros de saúde nem contempla a comparticipação de psicoterapia, uma das componentes fulcrais no tratamento das depressões.

Faz falta compreender melhor o funcionamento depressivo e sobretudo aceitar que não é uma fatalidade ficar deprimido. Seria como assumir que quem começa a ter problemas de colesterol vai ter necessariamente um enfarte, em vez de tratar e até reverter esse problema, evitando o pior cenário possível. Dito isto, reforço que as depressões têm tratamento e não ficam para sempre. Mas podem ter consequências desastrosas se não forem bem identificadas e tratadas. Como em tantas áreas da saúde, a prevenção é a palavra-chave.

É preciso que sejamos exigentes com as medidas de apoio à saúde mental, divulgado por exemplo informação cientificamente validada que ajude a reduzir o estigma associado. Destaco uma iniciativa recente, onde se aborda a depressão sem rodeios e onde se pode aprender bastante sobre o tema.

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