Opinião

Ainda sobre a retirada americana do Afeganistão...

Alexandre Guerra


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Por mais informação e capacidade analítica que exista, nenhum observador externo conseguirá decifrar na sua plenitude o raciocínio que leva determinado líder a tomar uma decisão em termos de política externa. Um especialista – por mais especialista que seja -- nunca alcançará as mais profundas motivações daquele governante, que tanto podem obedecer a elementos da mais elementar lógica e racionalidade, como podem ser fruto de “feelings”, intuições ou, até mesmo, de caprichos. Por norma, biografias honestas e obras literárias de antigos assessores – que trabalharam de perto com esses líderes – ajudam-nos mais tarde à compreensão de uma certa decisão. Sejamos francos, o trabalho dos analistas de gabinete e dos politólogos teóricos nesta matéria é bastante irrelevante, porque pouco mais acrescenta além do óbvio. E o problema é que esse óbvio raramente oferece uma explicação que contemple todas as nuances ou detalhes. E como diz o ditado, muitas vezes “o Diabo está nos detalhes”.

Peguemos no exemplo da retirada das tropas americanas do Afeganistão. Na prática, a administração de Joe Biden está a cumprir o acordo firmado entre o seu antecessor e os Taliban no ano passado. Um acordo que, diga-se, foi muito criticado por chefias militares e especialistas em segurança. Não é difícil perceber porquê. Em termos de segurança internacional, esta decisão carece de racionalidade e sustentação, como aliás se tem vindo a verificar no terreno afegão e como já vários responsáveis militares americanos constaram. Fica-se com a sensação que o Afeganistão vai regressar aos velhos tempos da anarquia, voltando a ser um santuário para todo o tipo de malfeitores e terroristas e que Washington está disposta a pagar esse preço para sair daquele atoleiro. O problema é que ninguém o diz. Nem pode.

Até ao momento, não ouvi nenhuma declaração de Joe Biden verdadeiramente convincente ou genuína sobre o assunto. Compreende-se. A verdade, tal como ela é, não pode ser dita pelo Presidente dos Estados Unidos. Da mesma maneira que Mikhail Gorbachev não o fez publicamente quando as tropas soviéticas estavam atoladas no Afeganistão sem qualquer vislumbre de um desfecho digno.

Estava-se no dia 13 de Novembro de 1986 quando o então Presidente da União Soviética, Mikhail Gorbachev, traçou um cenário pessimista relativo à intervenção militar do seu país no Afeganistão. “Estamos a lutar há anos e se não mudarmos de estratégia estaremos aqui mais 20 ou 30”, disse o líder durante uma reunião do Politburo. Corria então o sétimo ano de guerra e os 110 mil soldados soviéticos continuavam sem conseguir derrotar os mujahedin. Oito mil homens do Exército Vermelho já tinham morrido e 50 mil ficado feridos. Do lado afegão os mortos contavam-se às centenas de milhar. Perante este cenário, Gorbachev acrescentou ainda: “Nós não estamos a conseguir aprender a forma de travar a guerra. Nós tínhamos definido um objectivo: promover um regime amistoso no Afeganistão. Mas, agora, temos que acabar com este processo o mais rápido que conseguirmos.”

Quando em Março de 1985 ocupou o Kremlin, Gorbachev disse de forma convicta que a retirada do Afeganistão seria a sua prioridade. Uma declaração feita numa perspectiva política e dirigida à opinião pública, mas desligada da verdadeira realidade do conflito. Gorbachev rapidamente percebeu que a tarefa a que se propôs era praticamente impossível de concretizar sem que com isso a União Soviética “perdesse a face”. A retirada soviética do Afeganistão sem qualquer ganho no terreno teria sempre consequências desastrosas para o império. Quando em Fevereiro de 1989 os últimos soldados soviéticos abandonam o Afeganistão deixavam para trás 15 mil camaradas mortos.

Política ou estrategicamente a União Soviética nada ganhara com a intervenção no Afeganistão, tendo, pelo contrário, sido humilhada e ferida de morte na projecção da sua imagem enquanto super-potência militar.

E agora, a menos de dois meses de 11 de Setembro, data do fim simbólico da intervenção militar americana no Afeganistão, é caso para perguntar: O que é os Estados Unidos ganharam com vinte anos de guerra no Afeganistão? Ou talvez a pergunta deva ser colocada de uma outra maneira: Quanto é que perderam? E é essa resposta que Joe Biden sabe, mas que não a pode dizer publicamente. Talvez um dia, numas memórias ou num livro de algum dos seus assessores, consigamos perceber o que verdadeiramente vai na alma de Joe Biden ao decidir por uma retirada pouco gloriosa e muito menos vitoriosa.