Opinião

Ainda há quem pense que o bullying nada tem a ver com a segurança interna?

Ana Luísa Conduto


Não sou especialista em bullying nem pretendo passar por ser. É, indiscutivelmente, um tema que me interessa, e tenho a sorte de poder chamar amigo a um colega, Luís Fernandes, que há vários anos se dedica ao estudo do tema, juntamente com o Tito de Morais, e a quem recorro frequentemente para discutir este assunto.

E porque é que este tema me interessa tanto? Desde que me lembro que quero ser psicóloga, e já lá vão mesmo uns anos. Sempre me preocupei em compreender e intervir em contextos sociais desestruturados — e não estou a referir-me exclusivamente a questões económicas —, em compreender de que forma, por vezes, a violência é a única resposta orgulhosamente reconhecida de resolver conflitos entre os mais jovens, enquanto bandeira para ser admirado e, mais tarde, para alguns como modus operandi de estar em sociedade.

Passei cerca de seis anos a trabalhar num estabelecimento prisional de segurança máxima e não me lembro de um único recluso que tenha conhecido que não tenha começado muito cedo a recorrer à violência, seja física seja psicológica, como forma de se (des)enquadrar socialmente. Mas o que não me sai da cabeça é uma frase que ouvia frequentemente de reclusos mais velhos relativamente a reclusos mais jovens: “Esta nova geração não respeita ninguém, não tem limites, só quer saber de si.” A verdade é que olhava em volta e percebia muito bem o porquê daquela frase relativamente a reclusos de 18, 20, 25 anos, e não era só pela questão da impulsividade característica no desenvolvimento do início da idade adulta, era também pelos menores níveis de preocupação com o outro.

Falar-vos de tudo isto é falar de segurança, é falar do conceito mais caro de segurança: o futuro da segurança, que passa pela prevenção, que em Portugal é um bonito conceito que decora textos oficiais ou é bandeira de tantos e tão bons investigadores, alguns deles psicólogos, que continuam a não ser auscultados para as definições de estratégias nacionais nesta matéria.

O relatório anual de segurança interna (escrevo em minúsculas porque ele continua aquém do que deve ser) fala da pandemia, da necessidade de adaptação das respostas das forças de segurança na pandemia. Mas quando fala das intervenções das forças de segurança junto da comunidade escolar, nomeadamente relativamente ao bullying, afirma: “Observou-se uma diminuição global de ocorrências em ambiente escolar (-6,7%) e de ocorrência de natureza criminal (-9,4%).” Esta distinção, por si só, causa-me alguma confusão, pois bullying é um conjunto de formas de comportamentos que configuram, entre outros, crimes de ofensa à integridade física, seja a agressão física, seja psicológica.

Por outro lado, tenho de ficar estupefacta com a ausência de menção ao cyberbullying, esse que continuam a fazer passar, apesar de relacionado muitas vezes com a comunidade escolar, como sendo um problema da “terra de ninguém”.

Perante a ausência de referência ao cyberbullying num relatório desta natureza, tenho obviamente de questionar os dados apresentados relativamente às ocorrências em ambiente escolar. Sobretudo, tenho de questionar as verdadeiras intenções das políticas de segurança quando ignoraram fenómenos que estão na origem da violência, quando continuam a não apresentar um diagnóstico nacional do bullying, como tanto tem sido exigido pelos meus ilustres colegas que trabalham nesta área, e quando, por outro lado, (finalmente) reconhecem neste relatório que a violência praticada em grupos de jovens e gangues é um importante tema ao nível da segurança nacional.

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