Opinião

Agora nós, Portugal!

André Pardal


Para estupefacção de muitos, Rui Rio foi, no passado sábado, reeleito (pela segunda vez) presidente do PSD, sendo designado, consequentemente, candidato a primeiro-ministro, contra António Costa (o único que, além de Rio, é verdadeiramente “candidato” a esse cargo). O seu estilo, no mínimo pouco convencional, parece não seduzir muitas das “elites pensantes” do PSD e do país. Contudo, obteve em directas – em que todos os militantes com quotas em dia votam – a terceira vitória consecutiva (apenas superado, neste particular, por Pedro Passos Coelho, que obteve quatro, não enfrentando em três delas qualquer adversário), sendo isso, só por si, já digno de nota.

As directas do PSD demonstraram ainda que, além de um partido vivo e mobilizado para as legislativas antecipadas de 30 de Janeiro (com quase 36 mil votantes), existe, na maioria dos casos, uma falta de sintonia entre os chamados militantes de base (aqueles que não exercem qualquer cargo dirigente na estrutura partidária) e os seus dirigentes. Preocupante? Antes pelo contrário, o que ficou demonstrado é que o vigor de um partido democrático se concretiza nestes momentos e que a fórmula “um homem, um voto” é, à excepção de todos os outros regimes (como diria Churchill), a melhor. Mas será mesmo uma democracia plena a que vivemos hoje em dia nos partidos políticos? Será verdadeiramente democrático que um candidato a primeiro-ministro seja escolhido por “apenas” 0,36% dos portugueses?

Se, como espero e acredito, Rui Rio ganhar as legislativas do próximo dia 30 de Janeiro, uma das suas prioridades deverá ser, desde logo, uma verdadeira reforma do sistema político e dos partidos, alterando formas de funcionamento e de relacionamento com os cidadãos eleitores, no sentido da sua abertura e transparência, só assim se evitando o crescimento das maiores adversárias da democracia, a abstenção e a indiferença.

Como já aqui escrevi, o PSD saído destas eleições internas sai mais fortalecido, em particular a sua liderança, por ser legitimada pelo voto dos militantes, mas também pelo facto de, durante muito tempo, o partido, mas também os portugueses, ter tido oportunidade de conhecer propostas e ideias distintas da actual solução governativa. Cumpre agora, neste curto espaço de tempo (encurtado ainda pela quadra natalícia) apresentar uma alternativa forte a seis anos de (des)governação socialista. Seis anos de ruptura em variados sectores, como a justiça, a saúde (com o iminente colapso do SNS), a educação (com uma governação centrada na ideologia, e pouco na aprendizagem), a defesa (com casos atrás de casos) ou a administração interna (onde o inefável ministro Cabrita perdura, como se nada fosse). Ao PSD não deverá atormentar a alternativa democrática no seu espaço político, seja ela de nicho ideológico (elitista e urbano), protagonizada pela Iniciativa Liberal, seja a frente de protesto protagonizada pelo saudosista do “Deus-Pátria-Família-Trabalho” Chega.

Após o fim da – salutar – disputa interna no maior partido da oposição, e parafraseando as palavras, num afamado congresso do PSD, do (então) enfant terrible Pedro Santana Lopes, “agora nós, Portugal!”.

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