Opinião

Afinal, os portugueses querem saber de política

André Pardal


Se nos tempos do Estado Novo existiam no nosso país dois temas tabu, mesmo nas conversas entre família, nomeadamente política e religião, muito tempo depois, curiosamente, a nova ditadura que domina a comunicação persiste em fazer crer que os portugueses continuam a não gostar, ou sequer prestar atenção, a tudo o que diga respeito à organização, direcção ou administração do seu país ou localidade, em particular as escolhas (democráticas) de quem os dirige, preferindo fazer crer que os seus milhões de concidadãos subsistem alienados apenas em futebóis e programas de entretenimento (maioritariamente de gosto duvidoso).

Essa narrativa – muito próxima, como já aqui escrevi a 18 de Julho do ano passado, do TINA (“there is no alternative”) de Margaret Thatcher, metaforicamente falando – quer-nos fazer crer, enquanto sociedade, que os políticos são todos medíocres e que, por muito que mudem os protagonistas, as políticas permanecerão as mesmas, decididas lá longe e sem alguma preocupação com quem vota.

Nada mais errado! Os portugueses, comprovadamente, interessam-se por política e não estão afastados dela.

Se dúvidas houvesse, aí estão os números das assistências à maratona de 32 debates televisivos, em 16 dias, desta campanha eleitoral, em que mais de 20 milhões de espectadores assistiram, atentamente, a um conjunto de prestações, na sua grande maioria surpreendentes – e, desses, 3,34 milhões assistiram ao debate Costa-Rio (quase um terço do total de eleitores recenseados), o debate entre os únicos líderes partidários que, efectivamente, concorrem a primeiro-ministro.

Ora, esta narrativa do TINA é própria de quem infantiliza os eleitores, de quem não é reformista, mas sim conformista, e de quem, apesar de publicamente o lamentar, aprecia altos números de abstenção. É, assim, própria da esquerda e do Partido Socialista, os que tentam ser os novos donos-disto-tudo, de preferência com o povo anestesiado.

Tendo os portugueses – como qualquer povo arreigadamente democrata – a cultura de participação democrática que têm, ao fim de quase 50 anos de regime democrático instalado, e, com todos os defeitos (mais ou menos) estruturais que conhecemos, querido saber de política, não restam dúvidas de que a sua exigência (principalmente entre os mais jovens) aumenta dia após dia.

Assim, resta aos responsáveis políticos estarem à altura – que melhor época do que a de campanha eleitoral – das responsabilidades e crédito que os seus concidadãos lhes transmitem porque, de facto, os portugueses querem saber de política, precisam é que os políticos queiram saber deles e das suas preocupações.

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