Opinião

Abril, Adão e os Silvas: elitismo e populismo em tempo de cinquentenários

Miguel Granja


Todos os tempos de simplificação grotesca da realidade requerem que os termos políticos de uso corrente sejam elementares e acrónicos, inequívocos e mnemónicos, autoritários e maniqueístas: por exemplo, a democracia é sempre boa e, por isso mesmo, de esquerda; o populismo é sempre mau e, por isso mesmo, de direita. Este prestável despojamento de ambiguidade visa, por via da redução da complexidade do real às exigências ideológicas do momento, não suscitar qualquer hesitação epistemológica a mentes primárias e, sobretudo, universitárias (fazer descer as segundas ao nível das primeiras sob pretexto de fazer elevar as primeiras ao nível das segundas é – sempre foi – todo um programa educativo).

Só entenderemos a aparente provocação sugerida pelo título desta crónica se, por um breve momento, regressarmos à tensão constitutiva de toda a democracia moderna. Ao contrário da actual simplificação laudatória que, endeusando-a, a coloca fora, e sobretudo acima, da esfera do exercício da crítica humana (afinal, é pecado os humanos criticarem os deuses e, acima de tudo, os seus auto-ungidos emissários), a democracia assenta numa falha tectónica cujas fenda e pressão exigem vigilância constante e correcção permanente.

A democracia, neste sentido, equilibra-se fragilmente em dois pólos, respondendo ambos, embora de forma divergente, à aspiração e exequibilidade do conjunto: por um lado, o pólo oligárquico, que tende para a formação centrípeta de elites cuja função é perpetuar a ordem vigente e, portanto, resistir a mudanças que ameacem a sua própria condição no interior dessa ordem; e, por outro, o pólo igualitário, que tende para a formação centrífuga de movimentos populares (ou, como dizem hoje as elites, «populistas») cuja função é reclamar reconhecimento e, nesse sentido, promover mudanças, mais ou menos disruptivas, na ordem vigente.

A relação de tensão permanente entre os dois pólos é, pois, de desafio e incompatibilização: o pólo oligárquico, evitando os excessos igualitários que neutralizariam a viabilidade de uma democracia funcional (é esse o papel rectificador do mecanismo da representação), tende no entanto a trair constantemente a aspiração igualitária, confundindo a sua blindagem elitista com o reforço da democracia; e o pólo igualitário, vingando a traição oligárquica à aspiração igualitária, tende a ameaçar constantemente o oligárquico, confundindo a sua impaciência popular com a abertura da democracia.

Ambos os pólos tendem assim, necessariamente, para a radicalização recíproca: o pólo oligárquico radicaliza-se no seu entrincheiramento, na sua cooptação e na sua esclerose (donde a tentação para o recurso a «cercas sanitárias», a que subjaz, nunca totalmente assumido, o entendimento excludente do outro como «intruso», como introduzindo-se ilegitimamente num lugar que não é seu, «usurpador» a que se opõe, naturalmente, o «guardião»); o pólo igualitário radicaliza-se no seu assalto, na sua vulgarização e na sua incontinência (donde a tentação para o recurso a «fins de regime», promovendo a concepção dicotómica que opõe os «explorados» cá em baixo e cá fora e os «exploradores» lá em cima e lá dentro). Os dois pólos, no entanto, não se limitam a desafiar-se e a incompatibilizar-se: os dois pólos alimentam-se mutuamente. Quanto mais se fecha sobre si mesmo o pólo oligárquico, mais poder de cerco e de fogo ganha o pólo igualitário.

Apenas procedendo a este desencantamento da noção de democracia, desalojando-a da vasta abóbada de propósitos celestiais unânimes e recolocando-a no apertado espaço de aspirações terrenas concorrentes, poderemos permanecer imunes ao feitiço da falácia – ensaiada e armadilhada nos últimos dias por intelectuais de esquerda e ecoada pelos idiotas úteis a seu serviço – que, com o desplante patético que caracteriza as elites barricadas na muralha da sua própria soberba, identifica o 25 de Abril de 1974 e um dócil comentador de plantão e de plantéis.

As escleróticas elites de 2021, gurus da falta de vergonha e da fartura de sofisma, ensinaram-nos que criticar a nomeação de Adão e Silva é ser contra o próprio 25 de Abril de 1974, é ser contra a luta anti-fascista, é ser contra os cravos vermelhos, os murais do pós-revolução, as músicas do Zeca Afonso e os desenhos da prisão do Cunhal. É ser, numa palavra, contra a própria democracia. Ou tudo ou nada: Adão e Silva é Salgueiro Maia ou não é Adão e Silva: Salgueiro Maia é Adão e Silva ou não é Salgueiro Maia. A julgar pelos patrióticos sacrifícios impostos nas despesas de representação, no salário de topo, no motorista e na equipa ministerial à sua disposição até 2026, Adão e Silva é, sem dúvida nenhuma, a Catarina Eufémia da sua geração. Nascidos no mesmo ano genesíaco, Adão e a Revolução são um só. Comemorar um é comemorar a outra. A 25 de Abril de 2024, Portugal comemora, com pompa e trompa, o glorioso cinquentenário de Adão e Silva. Adão e Silva sempre! Fascismo nunca mais!

Este desprezível onanismo das elites celebrando o seu próprio autismo explica, por um lado, o desfasamento crescente entre os dois pólos e, por outro, a inevitabilidade do movimento de correcção que o pólo igualitário da democracia necessariamente accionará por meio dos populismos. É neste sentido paradoxal que podemos dizer que o populismo é um sintoma de vitalidade, e não de degradação, democrática. Não necessariamente pelo que propõe mas pelo que provoca: mudanças no sentido de uma maior abertura do pólo oligárquico à componente igualitária e de aproximação da casta governante à massa governada. Enquanto mecanismo de vindicação igualitária contra a segregação oligárquica, não é à democracia que o populismo se opõe mas ao elitismo que pretende confundir-se com ela.

O populismo, que tanto pode manifestar-se à direita como à esquerda (Simon Clarke, em «Was Lenin a Marxist? The Populist Roots of Marxism-Leninism», não tinha dúvidas que o marxismo-leninismo é essencialmente populista e Ernesto Laclau, em Politics and Ideology in Marxist Theory: Capitalism, Fascism, Populism, chegou a escrever que o socialismo é «a forma mais elevada de populismo»), será sempre, sobretudo, uma reacção. Uma reacção, mais ou menos disruptiva, ao anquilosamento nepotista das elites: «Populism seems to become stronger the more intellectuals criticize it», já dizia, em 1995, Pierre-André Taguieff. Mas ninguém o disse melhor do que Robert Michels, há cerca de um século, no final do seu Para uma Sociologia dos Partidos Políticos na Democracia Moderna:

As correntes democráticas, ao longo da história, fazem lembrar a rebentação contínua das ondas. Quebram sempre no momento em que se enrolam e se abatem com fragor. Mas renascem sempre. O espectáculo que oferecem contém ao mesmo tempo factores de encorajamento e de desespero. Logo que a democracia atinge um certo estádio de desenvolvimento, inicia-se um processo de degeneração, adopta um espírito aristocrático, em parte adquire também formas aristocráticas e torna-se idêntica àquilo que em tempos procurara combater. É então que do seu próprio seio se levantam as vozes que as acusam dos privilégios oligárquicos. Mas depois de um período de combates gloriosos e de um período de participação cinzenta na dominação, também estes acusadores acabam por se dissolver na classe dominante. E contudo, contra eles levantam-se uma vez mais novos combatentes pela liberdade empunhando a bandeira da democracia. E não encontra fim este drama que ferozmente se desenrola entre o incansável idealismo dos mais jovens e a incurável sede de poder dos mais velhos. Sempre novas ondas a rugir no mesmo ponto de rebentação.

Pedro Adão e Silva, ao contrário do que julgam o comissário e a interminável procissão de «amigos pessoais» que não sabem homenagear o «Dia da Liberdade» senão competindo diariamente em servilismo, não é o antídoto dos populistas: é o seu alimento. E as comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, capturadas por uma elite apartada e amortalhada que oligarquizou a democracia em nome de protegê-la de si mesma, não são o pesticida do populismo: são o seu adubo. O elitismo do país de Adão e o populismo do país dos Silvas, na medida em que a natureza do primeiro é fechar-se ao segundo e a do segundo é romper o primeiro, estão condenados a colidir. Bom sinal: o 25 de Abril, ocorrido na falha geológica de dois países alheados um do outro, também só foi uma festa depois de ter sido uma colisão.