Opinião

A teoria portuguesa

Joana Amaral Dias


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“Desliguem p.f. o microfone ou então tirem o país da ficha”, pedia o inigualável gozão Fernando Assis Pacheco. “Portugal, se fosses só três sílabas de plástico, que era mais barato”, apelava O’Neill. Tem graça, sim senhor, mas - até porque são já citações tão estafadas - que tal substituir por “tirem o país da gaveta” e “três sílabas de papel”? Explico: é que qualquer pesquisazinha rápida mostra como esta foi, é e seguirá sendo a nação que faz lindos projectos e promessas que nunca saem de ambos. Sem querer maçar-vos demasiado, reparem: “Observatório do Racismo e da Xenofobia foi anunciado há três anos, mas continua no papel” (Setembro de 2022). Só deste ano, a lista é longa e sortida: “Plano para reorganizar PSP em Lisboa foi aprovado em 2014, mas ainda não saiu da gaveta”; “Obras no serviço de patologia dos Hospitais de Coimbra não saem do papel há oito anos”; “Governo deixa plano com 500 vagas para alunos mais desfavorecidos na gaveta”; “Lei para acabar com ‘tradição’ do roubo de alfarroba teima em não sair do papel”; “Autoridade que vai fiscalizar prevenção da corrupção ainda não saiu do papel”; “Bruxelas discute imposto que Costa pôs na gaveta”; “Plano de 2019 sobre urgências não saiu do papel”; “Seis meses depois, a ajuda pública à capitalização das PME não saiu do papel”.

Recuando no tempo, Portugal transforma-se mesmo num estudo de caso. Veja-se 2021: “Um ano depois e o reforço da protecção social dos trabalhadores nocturnos e por turnos continua na gaveta”; “Botão do SEF não saiu do papel”; “Lei dos lóbis ainda pode sair da gaveta, mas ninguém se entende”; “Aeroporto de Lisboa. Ligação do oleoduto ainda não saiu do papel”. Enfim, queira o leitor continuar a cavar o filão e confirmará que parece interminável : “A criação de um Fundo Sísmico é um projecto que não é novo, mas que nunca ‘saiu da gaveta’.” “A polémica sobre um museu que ainda não saiu do papel.” Etc., etc. Enfim, Portugal é, só pode ser, o campeão da procrastinação, recordista do plano abortado, medalha de ouro do “olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço”. Quando chegam as más notícias sobre ucranianos espancados até à morte pela nossa polícia, grávidas e bebés que morrem depois de procurarem as urgências ou cifras negras na corrupção, os governantes logo se afadigam com grandiosas soluções que tudo irão resolver, mirabolantes ideias mágicas e salvíficas que prometem amanhãs que cantam e o homem novo.

Depois, tudo acaba em gigantes águas de bacalhau e banhos-maria nestas três sílabas de papel encafuadas na gaveta. Fujam.

Teste rápido

Sabe quantas pessoas morreram num só dia (quarta-feira) em bombardeamentos azeris em território arménio, perante o silêncio selectivo da União Europeia?

(Resposta: mais de 100)

Autoteste

O processo de Pedrógão chega ao fim sem culpados porque:

1) Foi mais um embuste da justiça portuguesa;

2) A culpa é de nós todos, os verdadeiros responsáveis pelas alterações climáticas (governo e etc. não têm nada a ver com isto);

3) A culpa é do rato mickey;

4) A culpa é das pessoas que se meteram naquela estrada;

5) Era mesmo totalmente incontrolável.

Antigénio

Indiferente à hipocrisia e à hipnose, Cristiano Ronaldo publicou no seu Instagram uma foto com Jordan B. Peterson, um grande livre-pensador - dos poucos dotados de emancipação intelectual e capacidade crítica. Ora, juntou-se um self made man a alguém que usa a sua própria cabeça. Para os bem-pensantes, isto é o fim do mundo em cuecas.

Progénio

Numa mistura perigosa de grande indústria e emoções tribalistas, o futebol continua a ser arena de violência e palco de agressões. Antidesporto.

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