Opinião

A sombra de Pim

Vasco Rato


Habituámo-nos a ver os Países Baixos como um baluarte da estabilidade, do bem-estar, da civilidade e – sobretudo – da previsibilidade. Na entanto, não foram poucas as vezes que o país se encontrou na vanguarda de mudanças tortuosas. Um dos primeiros Estados a aderirem ao processo de integração europeia, desenvolveu um modelo de consensualismo democrático que garantiu a estabilidade e a prosperidade durante décadas. Na primeira linha da liberalização dos costumes, assistiu, nos anos 1990, ao surgimento de Pim Fortuyn, líder de um dos primeiros movimentos populistas europeus a chegar ao poder.

Vem isto a propósito dos protestos dos agricultores neerlandeses que, obviamente, suscitam escassa atenção da nossa comunicação social. Quase 54 mil explorações agrícolas, com exportações na ordem dos 94 mil milhões de euros, fazem com que a agricultura represente uma parte significativa da economia neerlandesa. Os protestos surgiram porque o governo de Mark Rutte aprovou uma lei que, em conformidade com os targets europeus, visa reduzir emissões de vários poluentes em 50% até 2030. Justificando a decisão, Rutte diz-se obrigado a preservar os habitats incorporados na rede Natura 2000, que cobre 18% da área terrestre da União Europeia e 8% do seu território marinho. Em comunicado oficial, o Governo reconhece que nem todos os agricultores podem permanecer nas suas explorações e que os que continuam terão de cultivar de forma diferente.

A reacção dos agricultores indica que o cumprimento das metas europeias de redução de emissões – tal como das metas que acompanham a transição energética – vai gerar conflitualidade social. Temendo a impopularidade, os governos europeus limitam-se a apresentar os aspectos positivos das mudanças em curso para melhorar o ambiente. Oculta-se o custo – nalguns casos, um custo elevado que não deve ser escamoteado. À medida que descobrem os verdadeiros impactos, os sectores afectados pelas mudanças vão recorrer a protestos e ao populismo. O caso neerlandês não é substancialmente diferente dos protestos dos coletes amarelos que inviabilizaram as reformas de Emmanuel Macron.

Evidentemente, a mudança nunca se faz sem alguma dor. Mas, para evitar o pior, convém começar por tratar os eleitores como adultos.

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