Opinião

A solidão dos tempos modernos

Teresa Rebelo Pinto


O tema não é novidade, a solidão é um assunto sério e relevante para a sociedade. Já muito se tem dito sobre as possíveis causas deste fenómeno, que nada tem a ver com o número de relações familiares ou sociais que as pessoas têm. Contudo, fala-se pouco do impacto que tem na saúde, na longevidade e na capacidade de desenvolver e implementar projetos de vida, embora seja evidente a relação entre estes assuntos. Além disso, se já sabemos que a solidão pode ser fatal, o que falta para lhe dar mais destaque nas políticas de saúde pública?

Nos dias que correm, as pessoas sentem-se sós (no sentido em que isso remete para a sensação de abandono, desamparou ou desconexão social) em circunstâncias muito diversas.

A solidão tem vindo a assumir novas formas que merecem uma reflexão especial.

Em primeiro lugar, é importante distinguir o “estar só” de estar ou viver sozinho. Há quem se sinta preenchido na relação consigo mesmo, divertindo-se e gozando a vida de forma profunda e realizada, sem grande partilha com os outros. Estes casos não apresentam nada de patológico. A solidão é subjetiva e é assim que deve ser entendida.

Por outro lado, existem marcas fisiológicas dos sentimentos de solidão. O nosso corpo reage ao isolamento emocional involuntário, mostrando-se fragilizado. Sabe-se que as pessoas sós estão mais suscetíveis a infeções, apresentam alterações hormonais e têm mais riscos cardiovasculares e metabólicos. O clássico trio stresse, ansiedade e depressão também a companha frequentemente as pessoas que se sentem sós. O recurso e dependência de substâncias é outro problema associado, podendo ter início ou agravar-se quando aparecem os primeiros sintomas de solidão, já que a falta de suporte dificulta o processo de reabilitação. Seria muito interessante se os médicos, por exemplo, investigassem mais a fundo se os seus pacientes sofrem de solidão.

Estima-se que o número de pessoas que vivem nesta situação tenha aumentado desde o início da pandemia, o que é fácil de perceber se olharmos para a solidão como um vazio relacional que se instala dentro de nós.

Houve pessoas que viram totalmente comprometidos os seus projetos de vida, outras que ficaram isoladas das suas famílias alargadas, ou que perderam familiares e não lhe puderam prestar a devida homenagem, houve quem adiasse consecutivamente rituais de casamento, final de curso ou outras etapas relevantes. Às vezes passam-se semanas sem que as pessoas saiam de casa, exceto para vir a uma consulta, por exemplo, e ter por fim um pouco de interação social relevante. Já pensou o que seria passar dias inteiros sem falar com ninguém? E se fossem semanas? Ou meses?

A impossibilidade de nos sentirmos úteis ou de conhecer pessoas novas é outra situação que está na base dos sentimentos de solidão. Estudos recentes identificaram maiores níveis de solidão percebida pelos idosos institucionalizados, depois de terem sido suspensas as visitas. Infelizmente, em muitos casos, isso representou um aceleramento na perda de funções vitais. As próprias redes sociais podem ter efeitos perversos, utilizando dinâmicas que nos afastam mais do que aproximam.

É urgente reconhecer os perigos da solidão. O “isolamento profilático” pode ser bom para evitar contágios, mas o afastamento e a desconexão social, a perda de significado ou valor, são também epidemias a travar. Este problema não afeta apenas os idosos, é transversal na nossa população. Nunca houve tanto cuidado na comunicação em saúde como agora, por que não aproveitar e redefinir as estratégias de prevenção e combate à solidão?

Em resumo, a solidão não tem estatuto socioeconómico nem geração, afeta pessoas de todas as idades, meios e culturas. É fenómeno complexo, de natureza biopsicossocial, que deve ser entendido na sua plenitude e valorizado desde logo tanto nas nossas casas como na política. Tanto mais numa época em que tantas rotinas nos obrigam a um isolamento social involuntário. Nunca é demais repetir: a solidão mata.

*Psicóloga, certificada em Sono pela European Sleep Research Society. Fundadora da Clínica Teresa Rebelo Pinto – Psicologia & Sono, onde coordena uma equipa de psicólogos.