Opinião

A síndroma de Heróstrato

Helena Ferro de Gouveia


Em 1941 houve quem nos EUA se opusesse a apoiar a Europa e o Reino Unido na luta contra Adolfo Hitler. Propunham que se fizesse “a Paz” com o ditador nazi.

Décadas decorridas, milhões de mortos e cidades arrasadas depois, regressa o mesmo discurso, substituindo-se Hitler por Putin. Contemplando a cinza quente da destruição e a brutalidade da guerra, perante o tormento enlouquecedor dos bombardeamentos, alguns tolhem-se. Gela-se-lhes o sangue perante a ameaça nuclear. A esse propósito, quero partilhar algumas reflexões.

Começo com Marguerite Duras e a sua passagem do infinitivo para o condicional e, depois, para o conjuntivo: “Escrever é tentar descobrir o que escreveríamos se escrevêssemos.” Pôr-se no lugar do outro, ou seja, viver esse lugar, é tentar descobrir como viveríamos se vivêssemos o que o outro vive. No fundo, a verdadeira questão de princípio na actual guerra na Ucrânia não é se devemos armar e apoiar a Ucrânia ou se devemos reforçar os nossos orçamentos militares. A verdadeira questão é quem queremos ser e como queremos viver. Com medo ou com dignidade?

Há guerras que os manuais de História não registam. A luta para preservar a dignidade face a esbirros ao serviço de um czar possuído por uma obsessão megalómana não pode ser uma delas.

O que se passou com a Ucrânia é o equivalente estatal a uma violação pelo ex-marido ou companheiro com a ameaça de destruição caso a vítima se defenda. Argumento absurdo e obsceno à medida que vamos conhecendo, dia após dia, que meninas e mulheres ucranianas têm sido violadas. E que os testemunhos delas arranham a rocha dura da indiferença de alguns.

À Ucrânia foi dito: “Querida, entrega-te ou ele mata-te e mata as nossas famílias.” A preocupação de alguns não é o bem-estar da Ucrânia, das mulheres e meninas ucranianas, dos homens e rapazes ucranianos, dos idosos ucranianos, mas o medo e a cobardia próprios. Ou a ideologia e o antiamericanismo cegos.

Não nos esqueçamos que, desde o início, a liderança russa definiu esta guerra como uma guerra contra o Ocidente. Estamos marcados com o apontador vermelho do sniper mesmo que nos deitemos de barriga para cima, como um cachorrinho medroso à espera de conforto, ou por mais apaziguamento que se tente.

Anna Akhmátova escreveu um verso triste e indelével: “Agora sei como é que a dor traça as rudes páginas cuneiformes na face.” A poeta escreveu sobre as filas de mulheres em frente à prisão de Leninegrado e conheceu na primeira pessoa o sofrimento: o primeiro marido foi fuzilado, o segundo morreu no Gulag, o filho passou dez anos na prisão. A pele de Anna não é apenas uma metáfora. Calar-se em público, escreveu o filósofo Demócrito, defensor da democracia e da liberdade e tão subversivo em tantos aspectos do seu pensamento, era “o melhor adorno feminino”. Na democracia ateniense, a palavra pública pertencia apenas aos homens. Como dizia o protagonista de “Sim, Senhor Ministro”: “Temos de escolher o melhor para o cargo, à margem do seu sexo.” Apesar de a história da literatura começar de forma inesperada - o primeiro autor do mundo a assinar um texto com o seu próprio nome é uma mulher, a poeta e princesa Enheduanna, que o fez 1500 anos antes de Homero -, as mulheres foram apagadas da literatura, da política, dos assuntos militares. “Eu afirmo que alguém se lembrará de todas nós”, escreveu Safo. Trinta séculos depois, quero dar razão à poetisa grega. E falar nas mulheres e, com elas, falar num povo.

É curioso que, tantos séculos depois de Heródoto ter escrito a sua obra, esta comece de forma actualíssima: a falar de guerra, de diferentes versões sobre os mesmos acontecimentos, de factos alternativos e de mulheres convertidas em mercadorias, vítimas de vingança, despojos de guerra. Muitos séculos mais tarde, o filósofo Emanuel Levinas, judeu, sobrevivente da Shoah e que perdeu toda a sua família em Auschwitz, escreveria: “O meu acolhimento do outro é facto decisivo através do qual as coisas se iluminam.” É ao contemplarmos o outro que definimos quem somos.

É humano dizer-se que se tem medo da própria coragem, é legítimo dizer que antes cobarde e vivo do que corajoso e morto. O que não se deve confundir é “pacifismo” com o que é uma kòutóu (vocábulo chinês para uma vénia de joelhos desonrosa para quem a efectua) perante o direito do mais forte, ou exigir a capitulação de um povo para apaziguar o medo de sermos nós os próximos. “Como nós não sabemos exactamente o que a Rússia entende como declaração de guerra, decidi hoje não pôr a louça na máquina.” O tweet irónico-absurdo de Sascha Lobo remete-me para a minha questão inicial: como queremos viver?

Na nossa geografia confortável não estamos habituados a lidar com fanáticos. Muitos pensam que bastam boas palavras e “umas cedências” para resolver a situação. Putin desiludiu-os a todos: não quer negociar, quer a vitória total. Quem sofre da síndroma de Heróstrato - quando foi torturado, confessou ter incendiado o mais belo edifício do mundo, o Templo de Artemísia, para ficar para a História - não se importa de ver o seu nome amaldiçoado, ri-se dos que brandem a Realpolitik.

Mala diplomática a subir

Mario Ferri

No Estádio Lusail, o início da segunda parte do Portugal-Uruguai foi marcado por uma interrupção provocada por uma invasão de campo. Um adepto, Mario Ferri, entrou no relvado com a bandeira LGBT, correu em direcção ao meio-campo do Uruguai e exibiu a bandeira e uma T-shirt alusiva à Ucrânia e ao Irão, antes de ser bloqueado por um segurança. Nascido em Pescara, Itália, Mario Ferri é futebolista, mas é mais conhecido por invadir jogos em que não faz parte dos convocados. Chegou a ser preso em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, depois de interromper a final da Taça do Mundo de Clubes, entre o Inter de Milão e o Mazembe do Congolside. Neste dia vestiu uma T-shirt do Super-Homem com a expressão “Free Sakineh”, uma referência à mulher iraniana que, na altura, estava em risco de ser apedrejada até à morte.

Mala diplomática a descer

Vladimir Putin

Olaf Scholz pressionou nesta sexta-feira Vladimir Putin a procurar uma “solução diplomática” para pôr fim à invasão da Ucrânia - solução que signifique a retirada total das tropas russas do território ucraniano. Durante a conversa telefónica de uma hora, Scholz “condenou em particular os ataques aéreos russos contra infra-estruturas civis” e sublinhou a determinação da Alemanha em apoiar a Ucrânia a garantir capacidade de defesa contra a agressão russa. Putin mantém-se inamovível.