Opinião

A saúde, a mulher e o corpo: três Lázaros ressuscitados pelo aborto

Miguel Granja


Certamente em virtude da tenebrosa atmosfera religiosa que domina hoje a mais alta instância judicial dos Estados Unidos e da sua recente, e igualmente tenebrosa, decisão antidemocrática de devolver à democracia uma decisão que só a ela, e não a nove pessoas não eleitas e com mandatos vitalícios a salvo de qualquer responsabilização democrática, cabe tomar, um misterioso fenómeno de avistamento colectivo teve lugar, nos últimos dias, num pequeno país peninsular já secularmente aclimatado à ocorrência de aparições. Há cem anos, as aparições vinham do sol; hoje em dia, num mundo mais veloz e conectado, chegam do Atlântico: com uma decisão apenas, o Supremo americano operou não um mas três milagres simultâneos, resgatando instantaneamente do submundo político-social três criaturas ainda há pouco dadas como desaparecidas e, segundo alguns especialistas, extintas: a saúde pública, a mulher biológica e a autonomia corporal. Três Lázaros ressuscitados, milagrosamente, pelo aborto.

A primeira ressurreição, a da saúde pública, ainda ontem, diante do sistemático falhanço no serviço elementar prestado às grávidas (os grávidos, por seu lado, não parecem ter queixas, o que prova bem como o privilégio patriarcal impera ainda no mundo da gravidez), não merecia qualquer manifestação de indignação e solidariedade; apenas, quando muito, um respeitoso acriticismo, porque quem critica o colapso do SNS, sabemos bem, ou quer privatizá-lo ou quer acabar com ele - ao contrário de quem lhe tece louvores, que vai acabando com ele enquanto recorre ao privado. E essa ignomínia, que nos desculpem as grávidas que perdem os bebés, os doentes que morrem numa lista de espera e os cidadãos sem médico de família, não admitiremos neste país. Isto não é a América selvagem, onde as pessoas são deixadas a morrer sem atendimento médico por não terem dinheiro. Isto é o Portugal civilizado, onde as pessoas são deixadas a morrer sem atendimento médico de forma totalmente gratuita. O avanço e o retrocesso civilizacionais, ao fim e ao cabo, distinguem-se precisamente nestes detalhes decisivos que escapam aos espíritos vulgares.

O segundo Lázaro ressuscitado é a mulher biológica, cujo paradeiro, ainda há pouco, era tão incerto como o local exacto onde repousa Mozart. O feminismo moderno, acabadinho de sepultar a mulher biológica como derradeiro resquício do patriarcado (não há sexos, nem primeiro nem segundo: há espectros - e o termo, de eco fantasmagórico, não podia ser mais adequado), encontrou hoje uma campa aberta: e vazia. Ontem, os homens tinham útero, engravidavam e menstruavam; hoje, só as mulheres têm útero e só deixam de menstruar quando engravidam. Entre a juíza recém-nomeada para o Supremo que não sabia dizer o que é uma mulher por não ser bióloga e os juízes do Supremo que revogaram Roe vs. Wade, passaram 13 semanas, o tempo de gestação, não já de um feto, mas de uma mulher feita. A revogação de Roe vs. Wade é, assim, um marco histórico na restituição da mulher a si mesma e à sua biologia, devolvendo-lhe o útero, a menstruação e, sobretudo, aquele enigmático evento resultante da fecundação do óvulo pelo espermatozóide a que as pessoas religiosas chamam “gravidez” e as pessoas não biólogas chamam “amálgama de células” (diz que só quem tem útero é que pode ser ignorante em biologia). Se, na primeira ressurreição, nove juízes em Washington fizeram mais pela saúde pública dos portugueses do que centenas de governantes em Lisboa, no caso da segunda, nove não biólogos de toga delicada fizeram mais pelas mulheres do que todas as feministas de barba rija.

Finalmente, a ressurreição do corpo e do princípio da autonomia corporal, morto e enterrado nos inícios de 2020 debaixo do pânico, perdão, do amor à ciência dos governantes perante um vírus respiratório que, em dois anos, vincularia, na mesma carnificina global, um mercado de marisco chinês e o bacalhau à Brás. Os negacionistas, que gostam de negar a evidência científica de que um planeta com 4,54 mil milhões de anos vai acabar nos próximos dez a não ser que os cidadãos aprendam a viver com menos e os políticos com mais, continuaram a negar o marisco e a enfardar o bacalhau, reivindicando o direito ao corpo a que, obviamente, não tinham direito porque a inoculação compulsória de uma substância é um dever social, enquanto a remoção voluntária de um ser humano é um direito à privacidade. O slogan “O meu corpo, as minhas regras” passou magicamente de negacionista a afirmacionista assim que a ciência despiu a bata branca do laboratório para vestir a batina preta da sacristia. Milagre! Se o Juiz Supremo, segundo os crentes, promete a ressurreição dos corpos no mundo dos mortos, os juízes do Supremo foram mais longe e cumpriram a ressurreição dos corpos no mundo dos vivos. Quem diria que o aborto poderia inspirar tantas e tais ressurreições?

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