Opinião

A representatividade das confederações

Rubina Berardo


Há vários anos que a sustentabilidade e o bem-estar animal deixaram de ser bandeiras de partidos individuais. Fazem parte do avanço civilizacional, ao mesmo tempo que nenhum país pode virar as costas às ameaças ambientais. Quando assistimos a uma Confederação de Agricultores de Portugal a declarar guerra política ao PS e ao PAN devido a possíveis entendimentos pós-eleitorais, tentando direccionar activamente o voto dos seus membros, só nos resta uma certeza: essa estratégia nada mais alcança que o encaminhamento de mais votos precisamente na direcção oposta ao intuito original da confederação.

O papel de qualquer sindicato ou confederação é o de representar os seus associados e classes profissionais. Para tal, não pode ficar à margem de temáticas que urge solucionar numa agricultura saudável e sustentável para o bem da sociedade, nem fechar os ouvidos de forma intransigente. Aliás, quantas vezes não se critica – e com razão – o desfasamento dos sindicatos face aos desafios da actualidade que as suas classes profissionais realmente vivem?

O que podemos esperar do papel futuro da CAP se o resultado eleitoral for o oposto do seu recente “apelo” eleitoral? Significa que se auto-exclui de negociar em nome dos agricultores? Ficam os agricultores sem voz na concertação social e nos debates legislativos?

Assumir um posicionamento populista alegadamente para combater um partido democrático só coloca a própria confederação “fora de jogo” para a próxima legislatura, independentemente de quem venha a formar governo depois das próximas eleições.

O mundo rural é composto por uma miríade sociocultural: grandes e pequenos produtores, convencionais e biológicos, jovens e menos jovens, recém-formados e oriundos de actividade familiar de muitas gerações. A noção de confederação exige que todos os agricultores, independentemente da sua escolha partidária, tenham voz sectorial, porque é precisamente a sua diversidade que sustenta Portugal diariamente com os seus bens essenciais. Deixem as exclusões ideológicas para os partidos políticos que costumam professar esses hábitos.

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