Opinião

A rampa deslizante

Carlos Reis dos Santos


No âmbito das comemorações do bicentenário da independência do Brasil, o governo português decidiu abrir a residência oficial do primeiro-ministro no passado dia 10 de Setembro, apresentando uma programação cultural, com o intuito anunciado de “representar a riqueza e vitalidade da cultura brasileira”.

No âmbito dessa programação, foram anunciadas as presenças de diversos artistas e entidades culturais brasileiras que apresentaram “espectáculos de música e dança, do Carnaval de rua ao forró, do funk à roda de samba”. Os festejos foram encerrados com um concerto de Puta da Silva, que assim se designa a si mesma, identificando-se como uma “multiartista afrotravesti imigrante”.

Do seu résumé sabemos que, “vivendo os desafios de ser imigrante, encontrou no trabalho sexual a possibilidade de se emancipar e autonomizar”. Hoje diz compartilhar as suas vivências na noite com a sociedade, utilizando a música e as artes para “criar trabalhos políticos, centrados nas questões diárias de pessoas imigrantes, racializadas e trabalhadoras do sexo”, apresentando-se ainda como fundadora de uma “associação auto-organizada de acolhimento de pessoas LGBTQIAP+”.

Como sabemos, e ainda no âmbito das comemorações, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, deslocou-se ao Brasil, a convite do seu homólogo, Jair Bolsonaro, para assistir na tribuna ao desfile-comício do 7 de Setembro.

Ali foi dado o lugar de honra central a um empresário sob investigação das autoridades judiciais brasileiras por promoção de eventual golpe de estado, chutando-se assim o Chefe de Estado português para uma posição protocolar de inferioridade, à qual Marcelo candidamente se sujeitou. Como se não bastasse, Marcelo ainda teve de ouvir Bolsonaro proclamar-se “imbrochável” enquanto este exibia a sua mulher, a beijava enquanto troféu e lhe gabava os atributos físicos perante a multidão ululante. Gritou ainda bem alto a sua masculinidade, apresentando-se orgulhosamente e prazerosamente como homem sexualmente viril.

Também perante isto, Marcelo assistiu na tribuna, do seu lugar menor, provavelmente embaçado, pese embora essa sua putativa vergonha não tenha tido qualquer consequência.

Entre esses três dias, e entre estes dois episódios inusitados, o da presença da Puta da Silva em São Bento, e o da presença de Marcelo em Brasília com o “imbrochável” Bolsonaro, encontramos um referencial comum: o abandalhamento progressivo do Estado português na sua dimensão simbólica, diplomática e moral.

Sob o pano de fundo da fracturada situação política e social brasileira, o Estado português, pelas pessoas dos seus dois maiores responsáveis políticos, confirmou, uma vez mais, o percurso deslizante, aparentemente inexorável, em que Portugal se encontra, não se sabendo, nem querendo, fazer-se respeitar.

Obviamente que o que aconteceu no dia 7 de Setembro foi uma afronta a Portugal.

E obviamente que o Carnaval montado nos jardins do Palácio de São Bento, a 10 de Setembro, foi um momento absolutamente rasca.

Portugal podia e devia assistir com muita atenção e cautela, e sobretudo com muita pedagogia, ao que se está a passar no Brasil. Este país de dimensão continental é, aliás, o exemplo acabado da deriva em que cai uma sociedade quando as periferias ideológicas engolem simétrica e antagonisticamente o centro, inviabilizando assim o sentimento pátrio comum.

O que nos parece estranho, quase indefinível, no actual momento brasileiro, deveria constituir mesmo uma linha de assimilação intolerável para nós, recusando-nos importar ou incorporar as suas dialécticas.

Mas, infelizmente, por um lado, o poder político português confunde o respeito pelas várias identidades conflituantes e justapostas que se defrontam na sociedade brasileira com a importação da sua dinâmica conflitual. Por outro lado, o poder político português não vela pela própria identidade nacional, não querendo ou não sabendo fazer respeitar, no plano simbólico, o decoro e a consideração devida à sua comunidade, organizada politicamente no Estado português, com a sua história, os seus símbolos, a sua posição diplomática no mundo, ao qual pertencemos reconhecida e soberanamente há quase 900 anos.

No Brasil, o centro político, essencial às democracias, é hoje um gigantesco donut. E é por isso que a democracia e a própria paz civil brasileira estão hoje sob sério risco.

Mas este problema não é apenas uma ocorrência brasileira. É hoje evidente que um dos males maiores das sociedades democráticas ocidentais é a crescente tribalização social e cultural que escancara as portas à ruptura irreversível do compacto cívico. Um pouco por todo o Ocidente as nossas polis ameaçam esfarelar-se perante a pressão dos extremos ideológicos, alavancada na exploração obsessiva das identidades e no consequente escarafunchar dos ressentimentos.

Francis Fukuyama, no seu livro “Identidades: A Exigência de Dignidade e a Política do Ressentimento”, assinala alguns dos efeitos devastadores que o discurso identitário tem trazido para a qualidade das democracias ocidentais.

O radicalismo discursivo que faz medrar os extremos, numa lógica simbiótica de aproveitamento mútuo, torna-se dominante na esfera pública, relegando para uma crescente marginalização as expectativas e necessidades de representação das maiorias silenciosas das sociedades ocidentais, outrora referentes e conformadoras, mas agora remetidas, neste tempo novo de polarização, à condição de maiorias vencidas e exaustas. E perigosamente ressentidas.

É isto que Marcelo não quer perceber.

Mas é isto que António Costa e o PS, sempre oportunistas, mas vesgos, procuram explorar para proveito próprio, com o propósito inconfessado, mas bem evidente, de perpetuação no poder pela inviabilização de projectos de mudança real de poder ao centro.

É por isso que procuram alçar aqui o Chega (para si o adversário ideal) à condição de adversário principal. E é também por isso que procuram elevar a extrema-esquerda vocal e urbana, condómina das redes sociais, garantindo ao pequeno mundo elitista-urbano de Lisboa um espaço de influência desproporcionado face à sua real implantação no país real.

Aliás, a escolha da artista Puta da Silva para encerrar um evento oficial do governo português, a respeito da celebração da independência de um país fracturado e onde tudo está em causa, não deixa de ser reveladora desta intenção de empolamento de uma agenda politicamente excêntrica e extremada.

Em recentes declarações (cf. entrevista à revista digital “Rimas e Batidas”, publicada em 23/06/2022) Puta da Silva lamenta-se que Lisboa não está preparada para a imigração, principalmente para pessoas “LGBTQIAP+, transvestigéneres, racializadas ou outras existências dissidentes”.

Esta activista faz assim transferir, para o conjunto indiscriminado da sociedade portuguesa, a culpa colectiva de todas as histórias de dificuldades das pessoas mais frágeis, e ao mesmo tempo atribuindo uma qualidade intrinsecamente conflitual de DISSIDÊNCIA social a estas pessoas.

Puta da Silva insurge-se contra o patriarcado ao mesmo tempo que considera a prostituição (que reivindica como trabalho sexual) uma possibilidade de estas pessoas se emanciparem e autonomizarem. E acusa a sociedade portuguesa de ser estruturalmente colonial, racista, transfóbica, misógina “e tantas outras coisas que ela pode ser”.

Ora este discurso, embora excêntrico e tremendista, tem em Portugal uma audiência. Pequena, mas crescentemente influente junto do aparelho mediático de Lisboa. Um discurso pautado por uma exigência de abertura irrestrita e incondicional a todos os imigrantes deserdados do mundo. Uma hostilidade ao “ideal hegemónico branco”. Uma revisão da história em que nos tornámos “um povo branco culturalmente bastante homogéneo para garantirmos o nosso poder e domínio sobre outros povos”. E um incentivo a que as populações imigrantes mantenham “intactas as suas raízes” como forma de resistência contra a violência e apagamento causados pelo colonialismo, que ainda perscrutam como presente, em Portugal, nos dias de hoje.

Mas não nos iludamos: este discurso tem tantas possibilidades de medrar entre nós quanto mais visibilidade lhe der o aparelho mediático de Lisboa. Mas convém igualmente admitir que essas possibilidades serão sempre ampliadas pela desistência do debate, disfarçada de desinteresse, por parte do centro e da direita democrática.

É comum pensar-se que dar-se atenção a uma questão significa ampliá-la. Mas é tempo de revermos esta assunção. A indiferença perante o discurso identitário insurgente garante inevitavelmente o seu ascendente. Ascendente na linguagem, nos termos futuros da discussão de novos debates, na conformação de uma mundivisão hostil às sociedades ocidentais e democráticas liberais.

É também por isso que negacionismo, imposto pelo aparelho mediático, sobre a percepção da insegurança sentida pelas populações mais expostas às consequências culturais e mutações demográficas resultantes da imigração, em vez de contribuir para a integração e estabilidade das comunidades, contribui para o ressentimento crescente de uma maioria, cada vez mais exausta, embora oculta.

Isto intoxica a prazo a sociedade. E remete muitas pessoas para o ressentimento ocultado das suas opiniões.

Veja-se, a título de exemplo, o caso da Suécia e os recentes resultados eleitorais ali ocorridos.

É certo que a nossa pequena realidade urbano-lisboeta, onde medram alguns dos artistas convidados e cooptados por António Costa, não se pode confundir com uma realidade mais vasta e nacional. Mas é evidente o continuum ideológico das novas gerações do costismo e do esquerdismo radical pós-marxista.

E é também evidente que existe hoje um sistema de identificação cultural, social e geracional de uma pequena elite lisboeta, bem de vida, e que pretende impor ao país a sua mundividência, e com isso também os seus complexos de culpa e as suas obsessões, servindo-se de artistas como Puta da Silva.

Deslizamos inexoravelmente pela rampa abaixo.

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