Opinião

A queda de um anjo

Vasco Rato


Sempre esteve aparentemente destinado a ser uma figura trágica, um homem cujas notáveis virtudes são eclipsadas pelos colossais defeitos. Poderia ter sido um primeiro-ministro da dimensão de Clement Attlee ou de Margaret Thatcher, dois líderes que, de modos diferentes, revolucionaram o Reino Unido. Boris Johnson tinha todas as condições necessárias para ser um grande primeiro-ministro: dispunha de uma maioria absoluta na Câmara dos Comuns, chefiava um partido unificado e, não menos importante, o Brexit proporcionava-lhe um novo quadro político para moldar o Reino Unido, transformando-o numa potência global capaz de traçar um caminho alternativo ao dos Estados Unidos e da União Europeia.

Com tudo na mão, parece que deitou tudo a perder.

Pode ainda sobreviver na chefia do Governo, mas não é líquido que resista ao tsunâmi que provocou. Não é fácil decifrar o que correu mal a Boris. Sem a sua criatividade e ousadia política, muito dificilmente os partidários do Brexit teriam saído vencedores do referendo de 2016. Aproveitou essa vitória para chegar à liderança dos tories e conquistou um inequívoco mandato como primeiro-ministro. Mais recentemente, colocou-se na vanguarda da linha dura contra Vladimir Putin, revelando-se um líder determinado que arquitectou o boicote ao petróleo russo e muitas das sanções que continuam a provocar danos significativos à economia russa.

É certo que houve revezes. As negociações do Brexit foram caóticas, a inconsistência do combate à pandemia produziu resultados ambivalentes e, agora, as sanções contra a Rússia provocam apuros económicos no Reino Unido. E, obviamente, espoletou o monumental desastre do Partygate. Problemas que talvez pudessem ter sido superados caso Johnson não evidenciasse os traços de personalidade que o conduziram ao beco em que hoje se encontra.

Tivemos sempre a sensação de que Boris não era inteiramente serious. Era um brincalhão, um joker que se divertia na política como antes se divertira no jornalismo criativo que praticava. Ficava a sensação de que, em última análise, era-lhe mais importante chegar a primeiro-ministro do que ser um bom primeiro-ministro. Mas não era destituído de carisma e — diga-se — de algum génio. Porque a vaidade e o narcisismo ditavam o seu comportamento, julgou que as convenções e as regras eram para os outros, para o mundo dos meros mortais onde, manifestamente, não se incluía. Autor de uma medíocre biografia de Winston Churchill, Johnson via-se na pele do antigo warlord que resistiu a Hitler. Quis ser um líder na guerra, mas teve de se contentar com a defesa da Ucrânia. Como Ícaro, quis tocar o sol, acreditando ter o mundo a seus pés. Não tinha.

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