Opinião

A pressão alta

Luís Naves


A nossa época tem uma curiosa diversidade de pressões sociais. Antigamente, era fácil: as pessoas tinham de ir à missa e pouco mais do que isso, cada um tratava dos seus assuntos e não se metia em política. A vida tornou-se complexa e agora há pressão social por todo o lado, incluindo ter opiniões sobre tudo. É obrigatório ir à praia ou aos Santos Populares, ninguém escapa à corrida para manter a elegância, mas também ninguém foge a engolir quantidades industriais de açúcar até engordar uns quilos que depois será preciso abater para manter a linha.

Um amigo dizia-me que detesta a praia mas tem de ir, devido à pressão social. Um mundo desértico de areia invasiva, calor sufocante, sede brutal e sombras transparentes. Prefiro piscinas, dizia, mas ir à piscina não é bem-visto.

O Verão traz os corpos bronzeados e aparecem as pessoas irritantes que perguntam a cada hora se já fomos à praia ou quando tencionamos ir. É uma pressão alta ainda mais eficaz do que a do Liverpool do sr. Klopp. Por falar nisso, outros amigos adeptos ferrenhos de um determinado clube queixaram-se durante anos da intensa pressão social para mudarem de camisola. O motivo era o excesso de derrotas do infeliz clube. Felizmente, todos estes bons amigos mantiveram as suas convicções.

Temos de parecer bonitos e confiantes. É obrigatório. Já viram as vidas maravilhosas dos vossos amigos do Facebook? É um exemplo contemporâneo da pressão para se ser feliz. A existência dos outros é um longo e belíssimo happy end, em cores de crepúsculo e rios de contentamento a desaguar nos oceanos da alegria. Não é o vosso caso? Há qualquer coisa de errado.

Estamos rodeados de opiniões com bom senso. É uma pressão insuportável. Aumentar os salários para compensar a inflação? Isso não faz sentido, aumenta a inflação. Já viram o final de um Conselho Europeu? Tudo correu tão bem que nem dá para perceber qual o motivo da reunião. Perguntaria um cínico: se estava tudo a correr tão bem, para quê reunirem-se? Mas os líderes reúnem-se na mesma, muito contentes e amigos.

Há quem diga que os líderes do presente não têm a estatura dos do passado. Os gigantes de outrora fizeram muitas asneiras, foram alegremente para guerras, levaram nações à falência e afundaram impérios. Exactamente como os nossos, que acrescentam declarações à imprensa após as reuniões, geralmente com uma banalidade soprada pelos assessores de comunicação, os quais não foram eleitos e não têm qualquer obrigação de perceber do assunto.

O mundo em que vivemos parece, por vezes, repetir épocas passadas, há episódios que dão a sensação de serem um ensaio de teatro em que um encenador muito chato insiste na eterna repetição da cena. É como se os argumentistas da realidade fossem às gavetas com teias de aranha procurar velhos enredos que já fizeram o furor das massas. Introduzem umas pequenas correcções, mudam os nomes dos protagonistas et voilà, tudo acontece outra vez, tão semelhante ao espectáculo anterior. Como dizia Karl Marx, cito de cor: a história repete-se, primeiro como tragédia, depois como farsa. Há intensa pressão social sobre os governantes para repetirem o catálogo dos erros.

Por falar em Marx: diz-se que já não há luta de classes, o que talvez explique a necessidade de pressionar os outros. Viajar, por exemplo, a pressão de viajar. Temos de ir a sítios onde toda a gente já foi para fotografar monumentos que toda a gente já fotografou e, cheios de tédio, temos de concluir que valeu a pena. Ceder à pressão social vale sempre a pena.

Repetimo-nos uns aos outros, o que bate certo com a frase atribuída a Voltaire: “A História nunca se repete, o homem é que se repete sempre.”

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