Opinião

A Nuvem

Nuno Lebreiro


TÓPICOS

Em 1998, o famoso Prémio Nobel da Economia Paul Krugman profetizou que o impacto da Internet na economia, a prazo, não seria diferente daquele causado pela invenção da máquina de fax. O excelso professor, aqui na forma tentada de profeta, baseou a sua previsão em complexas e intrincadas análises, bem como num pressuposto que explicou e assumiu: a informação que as pessoas estariam dispostas a partilhar na rede seria diminuta, logo imporia uma limitação natural, por falta de conteúdo, ao crescimento da Internet. A previsão de Krugman, um especialista-cientista, dono da autoridade máxima que a sociedade contemporânea permite — destilada, repita-se, num Nobel —, revelou-se, como sabemos hoje, uma verdadeira tontice, natural e justamente, dada a desmedida magnitude do engano, tornada em fonte de escárnio e gozação por parte da malta, em particular a de direita.

O desacerto de Krugman, em boa verdade, foi semelhante ao da maior parte dos equívocos da futurologia, razão pela qual a actividade costuma merecer monopólio reservado a cartomantes, mágicos e ocultistas, bem como a políticos em campanha eleitoral: Krugman “previu” o futuro baseado em premissas do passado, no caso, o comportamento típico dos adultos da década de 90. A verdade foi, como se sabe, muito diferente: não foi a internet que se limitou por falta de partilhas dos humanos, pelo contrário, foram os humanos que alteraram os seus comportamentos sociais em função das novas opções que a Internet lhes ofereceu.

O principal erro de Krugman, e daí o desvio tão absurdo na sua conclusão, foi, portanto, de base: a Internet não teve apenas impacto na economia; a Internet teve um impacto inédito, e avassalador, nas mentes, nos comportamentos, nos pensamentos, das pessoas e, dessa mudança abrupta, mudou o mundo tal como se conhecia, fazendo com que, com ele, então sim, mudasse a economia também. Krugman viu tudo mal, não porque falhasse cálculos, ou não conhecesse os teoremas que utilizou, mas porque lhe escapou o essencial — as pessoas.

Passados pouco mais de 20 anos, a revolução cibernética apenas acelerou, sem que se vislumbre ainda sequer qualquer final. Primeiro, o acesso ao novo mundo digital fazia-se apenas daquele computador pessoal em casa ligado à linha telefónica, isto se o telefone estivesse livre, claro. Depois, através de um modem GSM ligado a um computador portátil — agora anglicizados como laptops — que passaram a permitir uma certa mobilidade. Em 2004, uns meros 6 anos depois da ridícula previsão de Krugman, a Internet chegava já com toda a força aos bolsos de cada um de nós através dos telefones móveis “inteligentes”.

Nesse curtíssimo espaço de tempo, negócios, empresas, associações, governos, departamentos, organizações, instituições, todos sem excepção, abriram estaminé e armaram bancada num mundo novo, livre, uma espécie de far west digital onde o céu era o limite e a partilha a palavra de ordem: artigos, notícias, músicas, séries de TV, sketches, fosse por e-mail, fosse pelo Messenger, Napster ou qualquer outro programa de partilha, primeiro por plataformas, depois peer to peer, tudo se trocava sem olhar a direitos copyright.

Ao mesmo tempo, explode a blogosfera. Repentinamente, os jornais e as TV perdem o monopólio da opinião e da informação. Qualquer um podia agora ser jornalista, editor, escritor, comentador. O YouTube aparece e os conteúdos digitais criados e partilhados pelos cibernautas adquirem o imediatismo e o impacto que a imagem em movimento garante, uma dinâmica do reflexo instantâneo do mundo tal qual ele é, ou, pelo menos, assim parece que seja. Depois, cada telefone passa a ter uma câmara, fazendo de cada um de nós um potencial fotógrafo, ou realizador de vídeo digital. Enquanto a Kodak e outras empresas históricas vão à falência — a película deixa de ser necessária —, em Hollywood todos os filmes passam a ser rodados no formato digital, coisa que poucos anos antes era até muito mal vista pela irrealidade e imaterialidade que a técnica implicava — o desaparecimento das fitas, das bobinas, das tintas e revelações, dava então lugar ao código binário armazenado em RAM e ROM.

Em seguida, explodem as redes sociais. O Facebook, o Twitter, e muitas outras entretanto desaparecidas, ou já criadas, transferiram, e transferem, grande parte do espaço público, e publicado, para o mundo digital. A pouco e pouco, os jornais perderam peso. As TV também. Até mesmo os serviços de cabo vão decaindo face à concorrência que novas plataformas de conteúdos — como a Netflix e a Amazon — fornecem, em maior quantidade e com muito maior versatilidade. Aí, foi a vez da política, do teatro, do cinema, das artes em geral, dos debates sobre todos os assuntos que criam a actualidade, em poucos anos, tudo o que nos rodeia os olhos e as mentes ser vorazmente engolido pela Internet.

Por fim, então, e ao arrepio das ganas de Krugman, chegou a economia partilhada. A Airbnb, a Uber, por exemplo, onde, ao invés de limitar-se a partilha à música, ao vídeo e à opinião, se passaram a partilhar casas, férias, carros, viagens, propriedade. Daqui, chegou-se a uma interessante característica deste novo mundo cibernético: os maiores negócios são afinal aqueles que nada criam, apenas colocam em contacto aqueles que criaram, ou que detêm a coisa criada, e os consumidores que a desejam. A Airbnb não tem apartamentos, a Uber não tem carros, a Spotify não produz música. A Netflix, uma excepção, expandiu e já tem produtora própria. No entanto, a regra é: produtores e consumidores encontram-se e trocam em plataformas abertas a todos aqueles que querem comprar e vender, tudo somado num mercado gigante, literalmente do tamanho do mundo, onde agora até novas moedas encriptadas e anónimas servem de meio de troca, independentemente de bancos centrais e tarifas de câmbio.

Naturalmente, neste admirável mundo novo digital, fruto de uma revolução inédita e incontrolável, as antigas formas de controlo nacionais e estatais — fronteiras físicas, taxas aduaneiras, carimbos, atestados e certificados burocráticos, controlo fiscal e monetário — vão perdendo o seu poder. Do mesmo modo, também a posição dos grandes grupos económicos e poderosos interesses financeiros ficou ameaçada: num processo de inovação económica imprevisível tornou-se quase impossível descortinar qual seria a próxima indústria a ficar obsoleta pela transição tecnológica e digital. Onde, tal como os automóveis vieram destruir a indústria dos chicotes, também agora as gigantes tecnológicas ameaçam tudo engolir, em tudo se imiscuir — e, porque os negócios, as nossas próprias vidas pessoais, as trocas e, não esquecendo, os espaços públicos, mediáticos e políticos, escorreram-se rumo ao digital e à Internet, tudo, mesmo tudo, estas gigantes corporações erguidas do digital podem agora influenciar, quando não mesmo controlar.

É neste contexto, onde o novo e o antigo se enfrentam e gladiam, tal como conluiem ou aliam, em pleno Período Revolucionário Em Curso, quando tudo se agita em enorme convulsão globalizada, que 2020 trouxe consigo uma pandemia global. Esta, amedrontando as pessoas, reforçou os poderes dos Estados Ocidentais que aceleram agora rumo a formas mais ou menos convergentes com uma espécie de socialismo autoritário que, vendendo segurança, igualdade e justiça, anula por decreto as liberdades, os direitos e as garantias individuais que, ainda há muito pouco tempo, todos dávamos como adquiridas.

No entanto, ao mesmo tempo que os poderes dos Estados se fortalecem perante os seus respectivos cidadãos em consecutivos estados de emergência e atropelos constitucionais, esses mesmos Estados perdem poder para a nebulosa global que, num misto de organizações internacionais, agentes basilares do opaco sistema financeiro internacional e grandes corporações, quer industriais, quer tecnológicas, exercem a sua influência, impõem os seus interesses e garantem as suas posições. A Internet, agora transformada em nuvem, reflecte afinal apenas a nuvem que paira sobre, e manda no, mundo.

Consequentemente, os Estados nacionais, cada vez mais fortes com os fracos, que autoritariamente comandam, aparecem também progressivamente mais fracos com os fortes, a tal nuvem que lhes garante os financiamentos, os empréstimos, os investimentos, as localizações de fábricas e, não esquecer, as boas e más imprensas dos governantes, a propaganda ou o cancelamento dos políticos, a promoção ao palco internacional ou uma barreira à progressão pessoal dos gananciosos.

É, então, nesta pestilenta e inter-dependente nuvem de interesses políticos, económicos e financeiros global que, nas palavras de Rui Veloso, o mundo inteiro se reuniu para nos tramar. Um exemplo: desde o deputado socialista José Magalhães até ao Presidente do Fórum Económico Mundial, passando pelos donos do Facebook e do Twitter, e dos representantes da extrema-esquerda woke até à Administração Democrata Estado-Unidense, terminando numa panóplia sem fim de artigos na imprensa internacional (detida, ou financiada, pela nuvem), quando não mesmo na Academia (ibidem), todos os agentes versam agora, em uníssono, sobre os excessos da liberdade de expressão e como esta pode, e deve, ser limitada, controlada, no supremo interesse de um bem, como sempre acontece nos regimes autoritários, simultaneamente vendido como colectivo e individual.

Pelo buraco negro que a revolução digital criou na antiga ordem liberal, junto com as nossas atenções e vontades agora coladas aos ecrãs, são também sugadas as liberdades individuais, quer conceptualmente, pela propaganda dos donos do mundo novo, quer na prática, pela acção directa dos estados nacionais que, a esse imenso, e inédito, nebuloso poder, curvam pressurosamente a cabeça. De arrasto, os princípios que nos fizeram desaparecem perante a promessa da propaganda da nova era digital: a ciência, a verdade, a salvação material, a certeza, a segurança.

Depois, do outro lado da prensa que nos esmaga, os poderes que esse buraco negro cuspiu no mundo e que, fruto do seu poder, maniatam o próprio espaço mental: hoje, respiramos, mastigamos, pensamos, criamos, vivemos os conteúdos que os algoritmos, fria e calculadamente, preparam para nós. E quem gere os algoritmos que nos gerem a nós? Que decidem o que podemos, ou devemos, dizer on-line? Que espoletam os fact-checkers, gente cumprindo ordens superiores e com autoridade, agora legal em Portugal, para definir o que é verdade e o que é “desinformação”? Ora, a nuvem, pois claro.

Sem nos apercebermos, tal como Krugman em 98, continuamos a olhar o futuro pelas lentes, e pelo mundo, do passado. Mas esse mundo, o da ordem liberal, já desapareceu, engolido pelo digital. Agora, no seu lugar, nascido do ciberespaço que se fecha sobre nós, ergue-se uma nova moral, uma nova autoridade e um novo poder. A Internet, cada vez mais controlada pelos longuíssimos dedos do poder, substitui então as velhas estruturas e dita as novas regras: inclusividade, diversidade, igualdade, conformidade. Bem como a nova ordem moral: para salvar as pessoas do apocalipse pandémico, todas liberdades cessam; para salvar o planeta do apocalipse climático, tudo o novo ciber-sistema, aquele que se anuncia agora num conveniente reset, controlará. Tudo pelo novo sistema, tudo no novo sistema, nada contra o novo sistema. Enfim, o colapso da ordem liberal e o advento do novo fascismo — verde, biologicamente centralizado, total, digital.

PUB