Opinião

A nova variante

Luís Naves


Sem motivo aparente, no meio da rua, dois homens começaram a bater um no outro. A situação foi rápida. O automóvel que vinha atrás na fila colidiu com o da frente, mas o choque não passou de um pequeno toque sem importância. O homem do carro da frente saiu muito exaltado e, quando o outro condutor tentava sair do seu lugar, para avaliar os estragos, o irritado começou a empurrar violentamente a porta, aos gritos, impedindo-o de sair.

Isto durou dez segundos, até que o entalado saiu da viatura e espetou um murro em cheio na cara do mais nervoso, que se estatelou no chão. As pessoas à volta gritaram, correram para os separar, houve uma comoção pública e não fiquei para ver.

Saí dali a pensar que as pessoas andam de pavio curto, cansadas de tudo e pouco resilientes, como dizia uma governante. Já dura há quanto tempo? Quase dois anos de pandemia? As pessoas aceitaram muita coisa com paciência (incluindo o abuso de palavras na moda) e andam com os nervos em franja, com medo de cumprimentar desconhecidos e até com receio de respirarem ar usado por outros pulmões.

Perdemos de vista velhos amigos, julgando que morreram ou mudaram de país. A sociedade deslassa-se como maionese quente, as famílias andam separadas. Nos transportes e na rua encontramos gente com ar angustiado e reacções imediatas, à flor da pele, por coisas de nada.

Momentos antes daquela inútil explosão de raiva, os dois motoristas vinham numa falsa tranquilidade que qualquer governante, lá na sua bolha oficial, teria definido como resiliência frágil. Isto foi na semana passada, ainda nenhum dos pugilistas sabia da nova variante.

PUB