Opinião

A monogamia temperada é melhor que a monogamia pura

Tiago Mendonça


Já escrevi algumas vezes sobre o tema da poligamia, que é um dos tabus que ainda resistem nos nossos tempos. No fundo, mais do que um tabu, é uma hipocrisia. Na verdade, estamos com taxas a rondar os 65 divórcios por cada 100 casamentos, ou seja, dois terços dos casamentos não são, como na cantiga da Deslandes, para a vida toda. Mesmo deixando de lado as relações extraconjugais, é certo que pelo menos se avista uma poligamia sucessiva, com a multiplicação das relações ao longo da vida.

Mas não se pense que a minha proposta, mesmo no plano ideal, seria a poligamia. A monogamia tem muitas coisas boas que hoje gostaria de ressalvar. Na verdade, a família assume-se como a mais poderosa instituição dos nossos tempos. A monogamia serve esse propósito de família, desde logo porque elimina quase totalmente as dúvidas sobre a descendência e porque proporciona uma plataforma de estabilidade e de crescimento ao agregado familiar. As relações entre pais e filhos são verdadeiramente potenciadas num quadro monogâmico – pese embora, em abono da verdade, muitas relações pai-filho melhorem após um quadro de divórcio do que no contexto de um casamento fracassado. Depois existem, claro, concepções religiosas, sociais e até legais (a bigamia, além de ser proibida, é criminalizada) que apelam fortemente à monogamia e, por oposição, ostracizam quem prevarica. A integração em grupos sociais (jantares de casais, idas a eventos) é mais fácil seguindo a regra comum. A monogamia oferece, pois, uma solução de estabilidade. Mas oferece mais: tempo. Não existindo dúvidas de que, com maior ou menor intensidade, a necessidade sexual é prevalecente, a possibilidade de encetar relações sexuais a baixíssimo custo é um grande ponto a favor da monogamia. Pense o leitor que aos 40 ou 45 anos teria de estar permanentemente, que nem um adolescente, no mercado. A enviar mensagens. A conversar horas a fio. A marcar jantares e cinemas. Isto sempre, porque, num cenário de poligamia total, os processos de conquista repetir-se-iam indefinidamente. O desgaste, os custos de transacção, o impacto na sua vida profissional e pessoal seriam brutais. Por isso é que na maior parte das vezes, após uma separação, as pessoas tendem, mais ou menos rapidamente, a juntarem-se a outro parceiro. Pode até existir um período mais ou menos longo de celibato ou mais ou menos longo de relações coloridas, mas é insustentável a longo prazo. A monogamia, pelas tais concepções sociais, políticas, religiosas e legais, aporta ainda um efeito de reputação muito positivo. E, numa toada mais romântica, acreditando nas almas gémeas, podemos encontrar alguém que nos preencha de tal forma que “não queremos mais nada”. Sim, não sendo comum, são milagres quotidianos menos raros do que os mais cínicos podem imaginar.

Então, qual é o problema? É que existem dois movimentos contraditórios. Por um lado, um plano social que nos convoca para uma monogamia sem tréguas. Mas, por outro lado, um impulso natural (mais do que estudado e cientificamente indiscutível) que nos impele para a poligamia. As razões são variadas e nem sequer são uniformes (pelo menos, todas) em homens e mulheres. Mas esse impulso biológico está lá em ambos os sexos. Sendo animais dotados de razão, dir-se-á que sempre será possível e quiçá desejável equilibrar esses dois movimentos. Mas o ponto é precisamente esse. Equilibrar. Temperar. Ora, as relações modernas, em que tudo se permite menos a concessão a qualquer instinto biológico natural, não equilibram coisa nenhuma. Algumas pessoas, mais agressivas, proíbem qualquer concessão ao plano biológico – nem que seja um simples jantar com uma pessoa de outro sexo. Dizem que querem evitar riscos. Outras, menos agressivas, limitam ao cafezinho banal ao fim de tarde, mas cuidado com as chamas no Instagram. A definição de uma regra, além de ter o condão de tornar mais apetecido o fruto proibido, não sendo alicerçada na compreensão da necessidade de conjugar estes dois movimento, é frágil e permanentemente quebrada.

Por vezes atinge-se até um paradoxo: imaginemos que a intensidade sexual da Marta é de uma relação sexual por dia. É nesse registo que se sente satisfeita. E, depois, tem muitas outras necessidades que conflituam, positiva ou negativamente, com essa necessidade, por exemplo, a auto-estima. Podemos fazer figura forte, mas o aparecimento de outros players que demonstram interesse é um bálsamo para o ego. Vamos imaginar que o seu parceiro, o Rui, tem uma intensidade sexual baixa e a sua satisfação dá-se com uma relação sexual a cada dez dias. Coloca-se o problema: o Rui tem sexo sem querer? Não se mina aqui a liberdade sexual que hoje está sempre na boca do povo? Ou obriga-se a Marta a estar em privação 90% da sua vida? Resposta da monogamia pura: separem-se. Ora, esta resposta é curta. Por um lado, assume que a questão sexual é a mais importante num casamento. Eu discordo totalmente. Acho que o sexo está sobrevalorizado até. E, por outro lado, vamos fazer match com base exclusiva na intensidade sexual do parceiro? Faz sentido que a Marta e o Rui, que têm uma relação óptima, se separem por uma divergência de índole biológica ou social? Existe uma terceira solução: a Marta conseguir suprir essa necessidade de outra forma. Admito que enquadrada em acordos comuns. Admito até que não seja obrigatória a manutenção de relações sexuais em sentido estrito com outras pessoas. Pode atingir essa satisfação deixando uma conversa online escalar, consumindo pornografia, recebendo massagens com uma derradeira felicidade, pode ser possível ter relações, mas apenas com pessoas que não volta a ver, enfim, existe uma multiplicidade de hipóteses para temperar a monogamia. Para impedir que a pressão aumente.

Os estudos são escassos, mas o Journal of Sex Research aponta para a ocorrência de “traições” entre os seis e os 11 anos de relacionamento. Por isso, fico sempre desconfiado quando algumas pessoas, do alto das suas longas relações de dois anos, contestam o argumento. Dá-me ideia que bem pode ter razão o estudo. No fundo, a pressão vai-se acumulando ao longo do tempo. No início, não se nota muito. Afinal, sendo animais, não somos só animais. Podemos durante muito tempo acalmar essa intensidade sexual. Podemos beneficiar de uma paixão mais sexual, comum no início das relações. Mas a pressão é inevitável. E como não foi sendo diminuída ao longo do tempo, chega a um momento em que explode. Porque não se trata de a pessoa ser mal-educada ou malformada. Trata-se de a pessoa, a certa altura, não aguentar mais silenciar o seu impulso biológico. A pessoa é indecente se mente. A pessoa é indecente se humilha. Mas não é indecente se cede à sua biologia.

A analogia da relação amorosa com a planta, que deve ser regada e mimada, implica a adopção de factores protectores. E esses factores protectores – cuja base sempre será um diálogo sem quartel – são decisivos para o prolongamento e, quiçá, a eternização de uma boa relação monogâmica. Não é só ouvir o parceiro. É ouvir-se a si próprio. É perceber qual o melhor caminho, dos possíveis. De outra forma, entrando na utopia do romance ou do filme da Disney, muito possivelmente, a coisa acabará, se não a curto, pelo menos a médio prazo.

O texto vai longo. O melhor livro que li sobre a poligamia foi escrito pela mão de dois autores: Judith Eve Lipton e David Barash. O título é “O Mito da Monogamia”. Os autores eliminam a ideia da monogamia enquanto impulso natural. Percebem muito bem este conceito de monogamia temperada. Ah! E são casados desde 1977 e tiveram dois filhos. Mas não devem perceber nada disto.

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