Opinião

A Marinha meteu água

João Villalobos


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A Marinha Portuguesa, achando que os acontecimentos envolvendo uma criança de pouco mais de dois anos eram oportunidade para uma ação de marketing digital, decidiu publicar um post com o seguinte calibre de humor: “Noah, Aqui fica a folha de inscrição para os Fuzileiros, quando tiveres 18 anos, caso queiras concorrer. Mais tarde podes vir a fazer parte do DAE, onde as táticas de sobrevivência são fundamentais. Aproveita a tua infância. Todo um país ficou muito feliz com o teu regresso”.

Nas redes sociais “As opiniões dividem-se entre os que louvam o humor do post e os que criticam o facto de ser inoportuno e de mau gosto” escreveu, a esse propósito, a revista ‘Visão’. Uma informação, aliás, contendo um factor zero de novidade. Podia tratar-se da publicação de uma receita de bolachas de água e sal, tão ao gosto dos marinheiros, e as opiniões dividir-se-iam na mesma. É uma lei da patafísica no universo digital. Nas redes sociais tudo se divide, nada se consensualiza. “Mas isto é uma publicação da Marinha ou dos Batanetes?!” foi apenas um exemplo de contraponto a declarações como “Talvez agora olhem de forma diferente para os meninos copo de leite da geração Nutella”.

Como fez notar Mafalda Anjos no Twitter, “É ténue a linha que separa o que é engraçado e as piadas (sobretudo com crianças) que colocam em causa a imagem das forças armadas ou outras forças de segurança. Na dúvida, é sempre melhor não arriscar”. Isto, que pode surgir também como uma evidência a pessoas mais sensatas, é algo que infelizmente convém reiterar nos dias que correm, com o discernimento e o bom senso a serem bens mais raros do que o lítio.

Mas o meu ponto é outro. É o de que o que está em causa na criação e publicação deste post não é a linha limite do humor em torno de uma criança, mas sim a promoção comercial da instituição a propósito dos acontecimentos que envolveram uma criança. O pequeno Noah foi encontrado a vários quilómetros de casa, sem roupa, desidratado e com apenas com alguns arranhões nas pernas. 36 horas depois do seu desaparecimento. Isso tanto faz dele um potencial fuzileiro como um potencial escoteiro. O que não deve é transformá-lo em pretexto para aproveitamento na angariação de novos recrutas.

Também sobre este meu artigo, tal como sucedeu com o post, as opiniões vão dividir-se. Se entendo que a Marinha meteu água, outros proclamarão que os responsáveis tiveram sentido de oportunidade e de humor. “A Pátria Honrai Que a Pátria Vos Contempla”. Em todos os navios da nossa Armada está orgulhosamente inscrita esta divisa. E espero que, um dia, o já não pequeno Noah possa entender o que ela verdadeiramente significa.