Opinião

A lição democrática vinda da Hungria

Alexandre Guerra


A Hungria deu uma lição de democracia à Europa. Esta afirmação poderá parecer descabida, atendendo ao rumo que o Governo daquele país tem seguido nos últimos anos em matéria de liberdades e garantias. Mas a verdade é que um país democrático (e a Hungria ainda é) não se define apenas pelo estilo do seu Governo. A resiliência do sistema político-partidário é essencial para garantir que, mesmo perante o asfixiamento de alguns princípios elementares democráticos, se assegura um nível minimamente competitivo naquele que é momento derradeiro das democracias: a eleição. E foi isso que nos últimos meses vários partidos da oposição húngara alcançaram, através de uma solução criativa e eficaz para desafiar o poder do partido Fidesz e do primeiro-ministro, Viktor Órban, nas eleições legislativas do próximo ano. É uma espécie de frente comum que alberga partidos do centro-esquerda ao centro-direita (os liberais e social-democratas da Coligação Democrática, os verdes do LMP, os centristas do Momentum Movement, o Partido Socialista Húngaro e os centristas-liberais do Diálogo para a Hungria), onde nem sequer falta a direita nacionalista do Jobbik.

A solução encontrada pelos vários partidos da oposição partiu de uma certa concepção maquiavélica da política, ao afastarem temporariamente todas as suas diferenças entre si para se unirem nos esforços que conduzam à derrota do “inimigo” comum, dentro do quadro democrático vigente. É certo que por esta Europa fora existem inúmeros exemplos de coligações pré-eleitorais, mas a solução encontrada na Hungria vai muito além disso. Não se tratou de um simples acordo balizado ideologicamente. Pelo contrário. Tratou-se de uma aliança forjada sem preconceitos ou constrangimentos ideológicos e políticos na prossecução de um bem maior. E houve o discernimento de se perceber que, tanto mais forte seria essa aliança, quanto mais sólido e democrático fosse o processo de escolha do seu representante. É por isso que, numa iniciativa inédita na Hungria, os seis partidos/coligações que representam praticamente todo espectro da oposição no parlamento húngaro acordaram em Novembro do ano passado escolher o cabeça de lista através de eleições primárias a duas voltas.

No passado dia 17 de Outubro realizou-se a segunda e derradeira volta dessas primárias, com a eleição do conservador Péter Márki-Zay, com quase 57 por cento dos votos, batendo Klára Dobrev, vice-presidente do Parlamento Europeu e da Coligação Democrática. Pelo caminho, na primeira volta realizada em Setembro, já tinha ficado o presidente de Câmara de Budapeste, Gergely Karácsony, um dos principais rostos da oposição a Orbán e que concorreu em nome de três partidos (Diálogo para a Hungria, Partido Socialista, LMP). A vitória de Péter Márki-Zay é, por si só, um feito de robustez democrática (na segunda volta votaram cerca de 600 mil eleitores entre voto presencial e online) e um exemplo raro na política, ao privilegiar-se um objectivo maior acima dos interesses partidários, já que o candidato, com 49 anos, não tem qualquer filiação.

É actualmente o presidente de Câmara de Hódmezővásárhely, uma cidade no sul da Hungria. Conservador e pai de sete filhos, Péter Márki-Zay conseguiu ir buscar votos ao centro e à esquerda, mas também aos liberais. E claro está, à direita.É um enorme exercício de democracia e de criatividade política que começa a dar resultados, já que as sondagens apontam para um equilíbrio entre a Oposição Unida e o Fidesz. Pela primeira vez, em muitos anos, há uma perspectiva real de derrotar Órban, que desde 2010 já venceu três eleições parlamentares por maioria absoluta. O combate vai ser duro e longo e começou no passado Sábado, com Budapeste a ser palco de dois grandes comícios de Órban e Márki-Zay. Sabemos que a Oposição Unida só permanecerá unida até às eleições legislativas. Mas isso já não é pouco. É um feito imenso, porque pressupõe disponibilidade dos partidos para olharem para o sistema político como uma realidade dinâmica e maleável. Uma lição importante para Portugal, onde os actores continuam amarrados a posições dogmáticas em matéria de arranjos partidários, dentro de um sistema político-partidário muito rígido e pouco criativo.

PUB