Opinião

A invasão

Nuno Lebreiro


No filme “The Invasion”, de 2007, relata-se uma invasão alienígena através de uma substância que, uma vez entrada no organismo humano, atinge o cérebro e passa a controlar as pessoas. No entanto, a ocupação alienígena, um ente colectivo onde cada um dos corpos humanos conquistados passa a pensar e agir como um só, é também “uma libertação”, explica a certo momento a personagem de Daniel Craig. Deixando-se colonizar pela entidade invasora, porque esta é una na sua colectividade, ao confortável embalo da harmonia perfeita do todo e à ausência de inveja e outras maleitas da psique individualista junta-se a certeza de um único desígnio para a vida, para a acção individual, para tudo e para todos – ou seja, uma libertação das agruras da individualidade, bem como da responsabilidade que vem acoplada a ela.

Em boa verdade, a espécie alienígena representa o perfeito projecto totalitário e o secreto e ancestral anseio do colectivista terrestre – a promessa do comunismo, aliás, sempre foi essa, a da felicidade obtida pela abdicação da individualidade. Daí que, tal como para a entidade extraterrestre que, no filme, não hesita em despachar humanos já dominados na ânsia de obter o controlo total da humanidade, também os regimes totalitários nunca tiveram pejo em deixar um imponente número de vítimas mortais – afinal, quanto vale uma vida individual perante a grande marcha gloriosa do colectivo?

O Ocidente construiu-se contra esta ideia perigosa. A ordem liberal impôs um equilíbrio entre essas duas dimensões da liberdade social em permanente tensão – o colectivo e o indivíduo –, alicerçado no respeito pelos direitos, liberdades e garantias dos indivíduos naquele que é o fundamento primordial da ordem liberal: a protecção intransigente da dignidade da pessoa humana.

Já os totalitarismos fizeram-se contra esse equilíbrio, privilegiando o colectivo. Na Rússia, exaltando a racionalidade científica geral e abstracta do pensamento marxista, o colectivo impôs-se logo em 1917. Mais tarde, em Itália, foi o ideal do progresso humano consubstanciado na organização estatal que fundou a revolução fascista dos anos 20. Depois, na Alemanha dos anos 30, foi a raça que clamou por um espaço vital de libertação colectiva. Em todos estes exemplos, o que há em comum é uma ideia salvífica tornada desígnio que, uma vez aceite pelo colectivo, passa a ter de ser aceite por todos. E de tanto se acreditar na benevolência do ideal sonhado, desde o paraíso neocristão de partilha comunista à imagética progressista neo-romana do novo Estado fascista ou à pureza da raça ancestral dos germânicos, de tanto se crer na bondade, ou necessidade, do fim, dos objectivos, perde-se a noção de proteger as pessoas que não aceitaram aderir ao sonho, ou culto, colectivo.

Em suma, é onde, em nome da narrativa colectiva, se abdica das limitações impostas ao colectivo pelas liberdades individuais – de pensamento, de expressão, de decisão – que se abre a porta ao totalitarismo. Aí, os não aderentes passam a representar um problema, o entrave ao estabelecimento da nova ordem que oferece aos líderes do sistema a desculpa para que o paraíso totalitário final persista, permanentemente, escondido atrás da próxima esquina – o bode expiatório do falhanço do sistema.

Um devir colectivo quimérico, uma narrativa oficial inquestionável, um bode expiatório conveniente, eis os elementos fundacionais da catástrofe totalitária.

A covid-19 trouxe muitos destes elementos consigo. Em pânico, no isolamento do confinamento decretado pelo Estado, sob o transe hipnótico da TV e dos jornalistas que repetiam 24 sobre 24 horas a mesma mensagem, logo o pensamento único, colectivista, protototalitário se formou para tomar conta do espaço público, familiar e mental das populações.

A pouco e pouco, a noção de que para um único mal, a covid, havia apenas um único remédio – seguir as “recomendações” das “autoridades” e dos “especialistas” – impôs-se e triunfou. Assim, quem levantasse a voz e dissesse que o caminho poderia ser outro era, tal como ainda é, trucidado no espaço público como “negacionista”, um termo tão estúpido quanto revelador não da mentira da pseudonegação mas, mais grave, da verdade da implantação de uma determinada narrativa oficial que não deveria ser negada.

Para quem, como é o meu caso desde Março de 2020, entende que seriam exigíveis medidas extraordinárias para proteger os grupos de risco da covid-19 (desde o início clara e facilmente identificados), medidas essas que não foram tomadas, e que se deveria ter deixado o resto da população lidar com o vírus e com a doença, tal como se fez na Suécia, com a naturalidade que uma taxa de sobrevivência superior a 99% permitia, não deixa de ser extraordinário o caminho que se percorreu até aqui. Desde as máscaras, que de prejudiciais passaram a obrigatórias, até às crianças que, não apanhando a doença, passaram a ser o enfoque principal da vacinação, relembrando – como tive oportunidade de escrever diversas vezes nesta coluna – a completa falibilidade dos testes PCR que inflacionaram gravemente os números da pandemia, desde os “casos” até aos mortos, todo um caminho de contradições se fez sem que, grosso modo, as autoridades oficiais alguma vez fossem seriamente colocadas em causa. Muito pelo contrário, a cada contradição mais se confirmava a necessidade de impor mais e mais regras – num uníssono ensurdecedor.

Pior ainda foi a censura que se impôs por todo o lado a propósito dos tratamentos com medicamentos pré-existentes – como a hidroxicloroquina e a ivermectina –, já sem patente, logo baratíssimos, e que cada vez mais estudos atestam serem extremamente eficazes no tratamento precoce da covid-19. No entanto, a hidroxicloroquina, uma substância praticamente sem efeitos adversos, foi desfeita como “desinfectante de aquários” e a ivermectina, um medicamento cuja descoberta foi recompensada com o Prémio Nobel da Medicina em 2015, continua com venda restringida, largamente desconhecida, para além de ter sido desvalorizada como “medicamento para cavalos”. Quantas pessoas teriam sido salvas se se tivesse apostado no tratamento precoce da covid-19 com a distribuição e prescrição destes – entre outros – medicamentos, baratos, abundantes e sem efeitos adversos significativos?

Mas a narrativa oficial não foi essa. No mundo do pensamento colectivo pandémico, a solução mágica para a covid-19 era a vacina. Daí que nada de mal se pudesse dizer sobre ela, e ai de quem não fosse a correr vacinar-se – uma, duas, três vezes –, não deixando de publicar a correspondente prova fotográfica na rede social. Mais uma vez, de fora, sobrou-me a perplexidade. Não ainda há muito tempo, as multinacionais farmacêuticas nem sequer conseguiam marcar uma reunião com deputados europeus ou membros da Comissão Europeia. A indústria farmacêutica, a par da do tabaco, por exemplo, há muito que tem péssimo nome e oferece inúmeras razões de desconfiança aos agentes políticos. Desde os escândalos e multas em que se vê constantemente envolvida – ainda em 2009, a Pfizer pagou 2,9 mil milhões de dólares, numa multa recorde, ao governo dos EUA –, quer na conhecida corrupção de médicos através de viagens e conferências, até falhas graves em testes e certificações de medicamentos com consequências gravíssimas, tudo isso sempre colocou os agentes políticos de pé atrás: ninguém queria ser visto como próximo do lóbi farmacêutico.

No entanto, de repente, a propósito da covid-19, numa reviravolta especialmente extraordinária à esquerda, eis senão quando as entidades previamente tidas como multinacionais sujas e abusadoras que exploravam a doença humana em proveito próprio passaram a ser vistas como as santas casas da salvação universal, organizações bondosas e tão benevolentes que, atente-se, pairavam acima da crítica ou do mero escrutínio. O mantra de “confiar na ciência”, seja o que for que isso signifique, rapidamente passou a equivaler a “confiar nas farmacêuticas” – tal como não ousar duvidar das vacinas, caríssimas, anunciadas a uma só voz como “seguras” e “eficazes”.

Ora, eu nunca fui contra as farmacêuticas, tal como nunca duvidei de nenhuma vacina – por exemplo, os meus filhos estão todos com o plano de vacinação actualizado – até estas vacinas da covid-19. As razões para a confiança numas e a desconfiança noutras são exactamente as mesmas: sempre confiei nas vacinas, não porque seja um mantra ou porque ache que as farmacêuticas sejam essencialmente “boas”, mas porque sempre confiei no processo de legalização e autorização dos medicamentos e demais produtos de saúde. Ou seja, eu confio nas vacinas porque elas são testadas durante anos, são verificadas ao pormenor, escrutinadas e, quando aprovadas, o Estado ou a farmacêutica é responsável pelo produto, pelo que se alguma coisa de má acontecer há direito a indemnizações – que nem o Estado nem as farmacêuticas terão interesse em pagar. Tudo junto, o sistema sempre me mereceu confiança.

Infelizmente, não foi nada disso que se passou com as vacinas contra a covid-19. Não foram aprovadas nem poderiam ser, dados os prazos apertadíssimos, estando apenas provisoriamente autorizadas em função do estado de emergência, não tendo sido testadas nem escrutinadas como habitualmente. Mais relevante ainda, as vacinas covid-19 até ao momento disponíveis são fruto de tecnologia nova – mRNA ou adenoviral –, experimental, necessariamente ainda pouco conhecida, em particular nos seus efeitos de longo prazo. Em cima disto, dado o carácter da emergência que permite a utilização extraordinária desses produtos farmacêuticos, ninguém é responsável no caso de um efeito adverso – nem o Estado, nem a farmacêutica.

Daí que seja ainda mais extraordinário que se possa sequer falar da obrigatoriedade de um produto cuja utilização apenas responsabiliza o próprio que o toma. No entanto, o pensamento único protototalitário pode tudo, incluindo imaginar tornar obrigatória uma vacina em que o obrigado é que se responsabiliza pelos efeitos adversos nele próprio de um produto que nem sequer teria a possibilidade de recusar. Do mesmo modo, acham os “especialistas” e os “comentadores” na TV que devemos todos aceitar o dogma de que tudo é seguro e testado, confiar sem mais, como se a obrigação da confiança fosse do consumidor, que deve consumir sem ousar duvidar, e não do fornecedor, ou do regulador, que sempre esteve obrigado a esclarecer, garantir, ou seja, gerar confiança – coisa que, além da propaganda médica habitual, não fez.

Tudo se inverteu. Mais: apesar de ser por demais evidente, já há muitos meses, que as vacinas não impedem a transmissão do vírus, não deixam os Estados de exigir “passaportes de vacinação” para as mais diversas ocasiões, fazendo com que, a par da destruição dos princípios mais básicos da ordem liberal – a não discriminação, o consentimento e a privacidade –, aposte o Estado ainda em impor aquilo que não pode ser visto como outra coisa além de uma licença burocrática para infectar os outros.

Apesar de tudo isto ser uma evidência factual – o carácter discutível da eficácia e segurança das vacinas, a imbecilidade dos certificados, o ataque inusitado à ordem constitucional, etc. –, o mantra hipnótico da TV mantém-se: vacinar em massa, incluindo crianças que não sofrem com covid-19 (para quê correr riscos associados às vacinas, que são vários e admitidos pelas produtoras, para uma doença que, na prática, não as afecta?), e quem critica ou levanta questões só poderá mesmo ser o tal do malandro “negacionista”.

Uma verdade, uma solução, esse é o resumo da situação. Sem meios-termos, sem concessões. E quem não adere, seja por que razão for, logo se transforma no bode expiatório do processo revolucionário em curso — repare-se no tão propagandeado quanto falso slogan da “pandemia dos não vacinados”. No entanto, a “verdade” da covid não se discute, nem se pode discutir – atente-se como não há político ou jornalista que mencione ou questione estes temas nos “debates” –, apenas se apregoa, e a salvação, tal como a absorção “libertadora” pelo alienígena no filme, não pode ser outra além da integração no colectivo, na massa, no todo disforme que “sabe”, e canta, essa mesma verdade — “libertando-nos” do medo de ter de lidar com a morte e a doença, rumo ao totalitarismo. De caminho, segrega-se, vilipendia-se, ofende-se, maltrata-se o bode expiatório não vacinado pelo ridículo fracasso que foi a resposta dos governos e das sociedades ocidentais à covid-19.

Um devir colectivo quimérico, uma narrativa oficial inquestionável, um bode expiatório conveniente, relembre-se, são os elementos fundacionais da catástrofe totalitária – já estivemos mais longe, convenhamos.

No pânico e no transe hipnótico da psicose colectiva, perante a ameaça da covid-19, na ânsia de uma quimera securitária inalcançável, deitámos fora as coisas mais importantes que tínhamos enquanto sociedade: a dignidade, a tolerância, a racionalidade, a liberdade.

Resta saber se as recuperaremos.

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