Opinião

À falta de melhor, que fique tudo na mesma

Octávio Lousada Oliveira


Já aqui escrevi que tenho pouca simpatia por homens providenciais, por pretensos escolhidos por entidades divinas, por messias contemporâneos ou por sebastianismos bacocos. Disse-o, com fundamentos diferentes, para criticar a esperança de algum PSD no regresso de Pedro Passos Coelho, para condenar as diatribes de Rui Rio contra todos os sectores da sociedade que não aprecia, para denunciar as cruzadas retrógradas de André Ventura e até para lamentar o nacional-parolismo em torno de Henrique Gouveia e Melo.

Portugal, cronicamente conservador e incorrigivelmente temeroso, avesso à assunção de defeitos e erros, vai vivendo embalado por mitos fugazes na esperança de que alguém o mude, por invariável incapacidade de mudar por si mesmo. Exemplos há muitos: esta semana, chamou-me a atenção Fernando Teixeira dos Santos, o ministro das Finanças que alinhou com José Sócrates quase até ao final dos seus dias políticos, permitindo que o primeiro-ministro continuasse a tocar violino enquanto vogava em direcção à bancarrota.

Numa entrevista televisiva, o antigo governante reconheceu que a resposta do executivo socialista à crise das dívidas soberanas e das finanças públicas do país foi “insuficiente” e que houve sempre “muita relutância” em tomar “medidas ousadas”. Revelou, além disso, que Sócrates, menino-bonito de muita esquerda e de alguma direita durante anos, “foi empurrando o problema” do pedido de ajuda externa, e concluiu - mais vale tarde do que nunca - que “o país ficou mais robusto após a troika”.

“Em 2015, ainda não estava corrigida inteiramente a situação do défice, mas as finanças públicas estavam numa trajectória de correcção e melhoria. Desde 2013 que Portugal está numa situação de equilíbrio externo, em que as importações não são superiores às exportações”, destacou.

Em boa verdade, Teixeira dos Santos admitiu sem rebuço aquilo que Rui Rio nunca foi capaz de verbalizar com orgulho: que foi um governo chefiado pelo PSD (com equívocos e percalços, evidentemente) a pôr cobro à alucinação colectiva em que vivíamos. E em que voltámos a viver. O líder social-democrata, que se olha ao espelho e vislumbra o único estadista que o burgo já conheceu, teve quatro anos para fazer a apologia de uma governação dura, dolorosa, impopular, mas responsável. Abdicou de o fazer em nome da conquista de uma abstracção conveniente a que chama “centro”.

Até à hora a que fechei este artigo, antes do debate entre António Costa e Rui Rio, o presidente do PSD vinha a fazer-se de morto. Sem acutilância nos debates, guardando-se para o frente-a-frente decisivo, com um programa eleitoral pouco ambicioso (em que a diferença mais saliente para os socialistas está nos impostos) e, sobretudo, sem uma mensagem de esperança, sem um ideário que me leve a acreditar que posso legar um país melhor aos meus filhos e aos meus netos.

Se o cenário não é animador no PSD, mais à direita é pavoroso. Francisco Rodrigues dos Santos e as suas produções cinematográficas caseiras demonstram que o CDS é hoje um partido de anacoretas, enquanto André Ventura confirmou que tem tanta aversão ao sistema e aos cortesãos da política somente porque não consegue ultrapassar a condição de jogral.

Mal por mal, que fique António Costa. Portugal há-de continuar. Afinal, é só isso que sabemos fazer: continuar.

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