Opinião

A estrada longa e sinuosa de António Costa

Leonardo Ralha


Convém recordar que tudo começou com uma derrota. Depois de retirar António José Seguro da liderança do PS, colando na mente dos militantes o rótulo de “poucochinhas” às suas vitórias eleitorais, e de encontrar pela frente uma coligação que tomara as medidas mais impopulares de que há memória, António Costa perdeu as legislativas de 2015,

Poderia ter sido o fim da carreira política, construída tijolo por tijolo num desenho lógico, mas o destino tinha planos muito diferentes para o antigo titular das pastas dos Assuntos Parlamentares, da Justiça e da Administração Interna, ex-líder parlamentar do PS e ex-vice-presidente do Parlamento Europeu antes de permanecer quase oito anos à frente da Câmara de Lisboa.

A estrada longa e sinuosa dos sete anos de governação que se assinalam neste sábado nasceu de uma derrota eleitoral, com o PS a ficar quase 250 mil votos aquém do Portugal à Frente de Passos Coelho e Paulo Portas. Mas, acima de tudo, nasceu da demonstração de capacidade e vontade para fazer o que ainda não fora feito, face à janela de oportunidade de haver maioria parlamentar de esquerda.

Por muito que a “queda do muro” que António Costa tanto aprecia mencionar contenha em si um grão de falácia, pois bloquistas e comunistas nunca assumiram ministérios e secretarias de Estado, a geringonça deverá assegurar um lugar ao actual secretário-geral do PS nos compêndios de política nacional estudados por gerações vindouras. Ainda que os seus efeitos acabem por ser mais marcantes na forma do que no conteúdo, pois a retórica capaz de satisfazer os parceiros parlamentares e a crença no Estado acima de tudo presente em socialistas escolhidos para as pastas da Saúde e da Educação nunca travaram o pragmatismo habilidoso que marcou os últimos sete anos.

Curioso é que, não necessariamente só pelo desgaste acumulado, Costa tenha vivido os piores momentos no comando do Governo desde que levou o PS à maioria absoluta, nas legislativas de 30 de Janeiro. Distante de ter uma compulsão reformista, o primeiro-ministro aparenta também não se dar bem em cenários teoricamente mais confortáveis. E o resultado está à vista de todos, com sinais de desnorte que só não têm consequências pela blindagem que 120 deputados garantem.

Recordando a corrida entre um burro e um Ferrari, realizada na Calçada de Carriche, que então ligava Lisboa a Loures, antes da criação do concelho de Odivelas, numa tentativa frustrada do jovem e ambicioso deputado do PS de abrir uma brecha na “cintura vermelha” à volta de Lisboa, é fascinante constatar que, tal como o animal de carga da memorável acção de campanha nas autárquicas de 1993, António Costa terá chegado mais longe graças à geringonça do que com uma maioria absoluta comparável à elevada cilindrada de um bólide de fabrico italiano como o Ferrari, que pouco pôde fazer devido ao congestionamento da via de circulação, também bastante longa e razoavelmente sinuosa, para sempre associada ao secretário-geral do PS.