Opinião

A esquerda não nos trata da saúde

Diogo Agostinho


Dois anos de pandemia passados e mais de 70 dias de guerra servem como de cortina de ilusão ou de fumo sobre os problemas estruturais do país que, infelizmente, não desapareceram, por discurso ou por um qualquer decreto-lei do Governo. Nem a pandemia, que nos virou do avesso, mudou alguma coisa na vida do Estado. Sim, falo do Estado.

A notícia de que existem mais portugueses sem médico de família do que no início da geringonça deveria envergonhar os nossos governantes e criar um clamor na sociedade portuguesa. Não aconteceu. Com a lata que lhe é sobejamente conhecida, depois de promessas e mais promessas, de cartazes e de palavras dadas, o primeiro-ministro chuta para a frente uma situação que é notória e gritante na vida dos portugueses, sobretudo dos que não conseguem aceder à saúde fora do SNS.

Batemos no peito pelo nosso SNS. São livros, medidas populistas como o fim das taxas moderadoras, louvores e loas repenicadas a António Arnaut, lembranças de João Semedo e um punhado de palavras bonitas de esquerda de bem. Palavras, não médicos, muito menos enfermeiros, nem sequer soluções. O SNS está à deriva. Sem rumo, sem orientação política ou de gestão integrada e a gastar mal os nossos parcos recursos. Como uma boa política patriótica e de esquerda, alegadamente, faria. O que vemos é que quem manda gasta o que é nosso, normalmente, mal.

Aliás, basta ler a entrevista de Pedro Pita Barros, talvez dos mais conceituados economistas do nosso país, sobretudo no que a temas de saúde diz respeito, para entender que o problema do nosso SNS não é mais dinheiro. Não. É a sua gestão, a sua boa administração e alocação eficiente de recursos. Palavra do professor da Nova SBE. E aqui começa o problema. Não na Nova SBE, um modelo de gestão pública de enorme qualidade, com dinamismo público e, sobretudo, privado. O problema está na mentalidade.

Gestão não rima com esquerda. Privados e iniciativa privada, muito menos. Já foram os erros de acabar com as PPP, mais porque sim ideológico do que por motivos de uma racional análise custo-benefício, agora com a solene promessa de endeusar o SNS, e acabamos nesta triste forma de “gestão”. Sem serviços de qualidade e sem garantir o acesso a todos. Até no ponto caro à esquerda, a igualdade, falham. O nosso país já conta com mais de 4 milhões de utilizadores de seguros de saúde. Este é um outro país. Esta realidade é diferente dos tempos em que se fez a Constituição. Sacrilégio pensar sequer na possibilidade de revisitar a nossa Constituição. Mas e o nosso SNS? O que fazer? Onde estão os avanços prometidos?

Gestão, inovação e muita vontade de mudar e acabar com as quintas e compartimentos estanques. Temos profissionais no SNS de enorme qualidade e com notório espírito de missão. Mas também temos de pensar o país nestas duas dimensões, público e privado. O que nos interessa ao fim e ao cabo? Não é o bem-estar e a qualidade de vida das pessoas? Não é a capacidade de resposta às populações? Não é ter esta segurança de que temos serviços públicos e privados que promovam a saúde dos portugueses?

Infelizmente, é a ideologia enviesada que está a matar a qualidade do nosso SNS.

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