Opinião

A entrevista

Alexandre Guerra


A 24 de Novembro de 2014 a Sony Pictures era alvo de um dos maiores ataques cibernéticos de que há registo, com graves consequências internas na sua rede digital, inutilizando milhares de computados e centenas de servidores. Como escrevia o jornalista e antigo sub-Secretário de Estado, Richard Stengel, anos mais tarde na Vanity Fair, em poucas horas a Sony regressou aos anos 80. Mas o pior estava por descobrir: durante semanas, os hackers acederam ao sistema informático para roubar todo o tipo de informação confidencial, incluindo dados de actores, emails internos comprometedores e filmes por estrear. Quase tudo foi parar à internet ou aos jornais, provocando prejuízos financeiros e reputacionais imensos, além de grandes embaraços nas mais altas esferas de Hollywood. A publicação The Hollywood Reporter chamou-lhe um “evento sísmico”.

As investigações do FBI e do Departamento de Justiça apontaram para Pyongyang e levaram à acusação de três cidadãos norte-coreanos. Embora ainda subsistam algumas dúvidas quanto às motivações e contornos do ataque, a tese mais sólida é a de que terá sido uma retaliação contra o filme satírico “The Interview” (2014), com Seth Rogen e James Franco, que conta a história de um produtor e apresentador de televisão de um talk show que vão à Coreia do Norte entrevistar Kim Jong-un com a intenção de o assassinar a pedido dos serviços secretos americanos. Expectavelmente, tendo Rogen e Franco como protagonistas, o líder norte-coreano é satirizado ao limite, assim como o regime norte-coreano, resultando numa paródia ácida, com alguns toques de malvadez e humor negro.

Meses antes de o filme ter sido estreado, Pyongyang, através de canais oficiais, demonstrou o seu descontentamento, dizendo tratar-se do “mais flagrante acto de terrorismo e guerra” e ameaçou com represálias. O assunto foi levado muito a sério pelo regime norte-coreano, que dirigiu uma carta ao Secretário-Geral das Nações Unidas para avisar os Estados Unidos de que, ou o Governo americano bania o filme, ou então estaria a ser conivente com a promoção do terrorismo. A verdade é que a Sony acabou por cancelar o lançamento do filme previsto para a época de Natal, assim como toda a campanha promocional associada. Por outro lado, as várias cadeias de cinema recusaram-se a passar o filme nas suas salas, com medo de retaliações. O filme iria directamente para o mercado de streaming, embora a maioria das plataformas recusasse, com medo de serem alvo de hacking. Dias depois, o então Presidente Barack Obama viria a condenar esta decisão. A Coreia do Norte rejeitou qualquer responsabilidade no ataque feito pelo grupo de hackers que se denominou de “Guardians of Peace”, sendo que existem outras teorias a sustentar diferentes motivações e ligações à Rússia.

Seja como for, lembrei-me desta “entrevista” de Rogen e Franco a propósito de uma outra, bem mais séria, emitida no início desta semana pela BBC News. O entrevistado foi Kim Kung-song, antigo coronel e alto responsável dos serviços secretos norte-coreanos durante 30 anos, que em 2014 desertou para a Coreia do Sul, receando pela sua vida e da sua família, depois do líder Kim Jong-un ter mandado assassinar o seu tio, Jang Song-thaek, em Dezembro de 2013.

Kung-song colabora desde então com a “intelligence” sul-coreana e é uma das primeiras altas patentes da Coreia do Norte a dar uma entrevista desta magnitude e com um teor substancial de informação. Embora muito do que tenha dito confirme aquilo que já se sabia, não deixa de ser muito preocupante ouvi-lo da boca de alguém que participou activamente num sistema de terror e opressão, tendo única e exclusivamente como objectivo a manutenção de um regime que assume contornos mafiosos e criminosos. Ao enfatizar o carácter mercenário do regime, Kung-song desconstrói, de certa maneira, o ideário de Pyongyang, onde assenta a sua retórica política de justificação dos seus actos de governação em prol de um bem maior na defesa do povo contra o inimigo externo.

Mas a verdade é que a defesa desse interesse colectivo é uma mera construção propagandística, criada desde a fundação da Coreia do Norte pelo “Grande Líder”, Kim Il-Sung. O regime e só o regime importa preservar, mesmo que isso seja feito com grande sacrifício da população, como aconteceu, por exemplo, com a crise da fome dos anos 90 e que provocou a morte de milhares de norte-coreanos. Crise essa que se está agora a repetir no país, com relatos de uma degradação substancial nas condições de subsistência do povo. Para o regime, mais uma vez, essa questão é irrelevante na sua estratégia de sobrevivência, já que o povo conta pouco naquele sistema totalitário. Kim Jong-un, tal como o seu avô e pai, limita-se a gerir despoticamente os instrumentos do Estado, para reforçar o seu poder e explorar todas as formas possíveis de gerar receitas para alimentar o regime e a sua propaganda. Kim Kung-song veio agora pôr a descoberto alguns dos métodos e operações levadas a cabo pela Coreia do Norte ao longo dos anos.

Além disso, Kung-song veio também apontar uma nova luz sobre o lado mafioso do regime, onde tudo vale, incluindo a criação de um laboratório ilegal de produção de drogas sempre com o objectivo de angariar “fundos revolucionários”, ou seja, dólares, para entregar ao líder. Sabia-se que era longa a tradição do regime norte-coreano na produção de drogas, nomeadamente ópio e heroína, mas Kung-song vem agora demonstrar o quão criminoso era o regime. À pergunta da jornalista da BBC News sobre se o dinheiro era depois canalizado para o povo, a resposta de Kim Kung-song foi esclarecedora: “Para ajudá-la a entender, todo o dinheiro da Coreia do Norte pertence ao líder norte-coreano. Com esse dinheiro, ele constrói moradias, compra automóveis, compra comida, adquire roupa e joias.”

A julgar pelas palavras de Kim Kung-song, diríamos que, como qualquer outro líder corrupto, de pouco serve com Kim Jong-un a política como ferramenta de negociação. Talvez o mais fácil e eficaz seja simplesmente “comprá-lo”.

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