Opinião

A empatia depois do dilúvio

Rubina Berardo


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O rasto de destruição deixado pelas recentes cheias na Alemanha, na Áustria e nos Países Benelux deixou-nos a todos atónitos perante a voracidade da natureza e a urgência das alterações climáticas.

Nas redes sociais, muitos ficaram indignados com o comentário de uma mulher atingida pelos efeitos das cheias, quando ela disse ao repórter que “estes fenómenos só aconteciam em países pobres”. Percebe-se a indignação. Mas acredito que a senhora não queria afirmar que a natureza só deveria ser madrasta para as economias menos desenvolvidas. Provavelmente só tinha visto imagens semelhantes em zonas mais longínquas.

Eu vivo numa dessas zonas. A 20 de Fevereiro de 2010 abateu-se um verdadeiro dilúvio sobre a Madeira: as ribeiras galgaram as suas margens, a baixa do Funchal ficou irreconhecível com lamas e rochas monumentais que as enxurradas trouxeram violentamente do topo das serras. Vidas perderam-se, casas foram viradas do avesso e negócios foram arrasados.

Hoje, basta chover mais que o normal para o madeirense ficar inquieto e ansioso, recordando-se daquele sábado. Certamente que agora, a população afetada por estas cheias também sofrerá deste efeito psicológico.

Recordo alguns comentários displicentes vindos de fora: “lá está, construíram as suas casas em zonas perigosas, e agora têm as consequências”. Mas também recordo a enorme vaga de empatia e solidariedade com a Madeira, vinda do resto de Portugal e de toda a Europa, de cidadãos que quiseram contribuir para o esforço humanitário e de reconstrução. Não deixemos que um comentário isolado de uma cidadã em choque nos dessensibilize para o sofrimento alheio.