Opinião

A EDP, Freddie Mercury e eu

João Villalobos


A impressão que me dá é a de se ter perdido o saudável hábito literário da diarística, razão pela qual aqui estou agora a recuperá-la. Miguel Torga, Vergílio Ferreira e tantos outros ficarão orgulhosos comigo, lá nas alturas onde estão, quando lerem a descrição dos meus dias, sempre preenchidos com temas de elevado coturno e repletos de pérolas de sabedoria e cultura. Neste dia em que escrevo, por exemplo, sairia algo assim: “Querido diário, hoje recebi a carta da EDP com os novos preços da electricidade a partir de Janeiro. Compreensivelmente, entrei num estado de catatonia do qual só fui despertado pelo meu filho ao despejar-me um copo de água na cabeça. Estas gerações de agora não têm respeito algum pelos idosos que os alimentam. Vou cortar-lhe a assinatura da Disney.”

Sim! Não te espantes que me descreva como velho, recém-nascido diário. Tu que foste trazido a este mundo no dia em que se recorda a morte de Freddie Mercury, o homem que cantava “Time Waits for No One”. Vinte e quatro de Novembro de 1991 foi há 30 anos, vê tu bem! Não achas impressionante o pensamento de que existem pessoas que já são pais mas nasceram em 1991? Foi também o ano em que morreu Eric Carr, o baterista dos Kiss. Mas não me vem à cabeça nenhuma música deles e, aliás, aquelas pinturas nas carantonhas sempre me irritaram. A URSS era oficialmente extinta e, com ela, a Guerra Fria, o Senna sagrava-se tricampeão de Fórmula 1 e eu entrava na redacção do entretanto extinto jornal Semanário para fazer notícias de economia, acreditem ou não. Havia menos critérios de entrada nas redacções.

Sabes o que tudo isto me faz pensar, confidente diário? Na Gertrude Stein, quando escreveu que, cá por dentro e apesar de envelhecermos, somos sempre da mesma idade. Parece-me um pensamento parvo, esse, por parte da Gertrude. Mas que idade interna seria essa, aliás? Os 25 que tinha em 1991 ou os 80 que sinto sempre que entro num ginásio? Mas, adiante. Hoje li num jornal que o director executivo da OMS para a Europa afirmou que “a obrigatoriedade das vacinas pode aumentar a toma, mas nem sempre aumenta”. Parece uma lapalissada mas, por incrível que seja, é gente assim que decide a nossa vida e a dos outros, e são notícias destas que nos aceleram a velhice por dentro até ficarmos com o cérebro carcomido e a vontade reduzida a pó.

Sinto-te impaciente, diário. É natural. A impaciência é uma característica da juventude. Quando tiveres a idade que tenho agora, já serás capaz de apreciar demoradamente os prazeres minúsculos da vida sobre os quais tão bem escreveu Philippe Delerm. O primeiro golo de cerveja, o cheiro da maresia, um pontapé num pombo, escrever sobre pêssegos como o Miguel Esteves Cardoso, esse verdadeiro sábio... Amanhã, quem manda nisto vai decidir qualquer coisa sobre as medidas anticovid. Os nossos governantes são como Truman: “De cada vez que tomo uma decisão errada, tomo logo uma decisão nova”, terá ele dito. Depois conto-te o que foi decidido desta feita. Pressinto que este é o início de uma bela amizade.

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