Opinião

A doutrina da redenção de Johnson Semedo

Leonardo Ralha


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Há cerca de oito anos passei uma manhã a fazer perguntas e a ouvir respostas de um homem que conhecia apenas de ter lido a autobiografia. Não é o tipo de evento que seja pouco habitual na profissão-vida que escolhi. Os jornalistas falam com pessoas para contar a outras pessoas o que ouviram, viram, descobriram e relacionaram.

É um trabalho que pode ser de detective, revelando factos que alguns não querem ver divulgados, por vezes até por terem implicações muito para além dos danos reputacionais. Mas o homem com quem estive naquela manhã, acompanhado pelos meus camaradas de redacção Sérgio Lemos e Frederico Nunes, não tinha tais preocupações, pois colocara as cartas todas na mesa. Na sua autobiografia, com o inspirado título “Estou Tranquilo”, descrevia de forma detalhada, e sobretudo desassombrada, um passado pautado pela droga, pelo crime e por longos anos de encarceramento.

O homem com quem passei uma manhã há oito anos chamava-se Johnson Semedo, não obstante ter sido registado João Semedo Tavares em São Tomé e Príncipe, de onde veio com dois anos para a Cova da Moura, lugar simultaneamente próximo e distante da capital, qual gato de Schroedinger de Lisboa. Enquanto caminhávamos os quatro pelas ruas do bairro, tão depressa acolhedoras e cheias de vida como, na esquina seguinte, literalmente problemáticas para forasteiros, ainda que acompanhados por um anfitrião que impunha respeito, contou-me tudo sobre o antes e o depois da mudança que conseguiu dar à sua vida.

Que um jovem consumido pelo vício e rotinado no crime tenha feito um virar de página que conduziu o homem em que se tornou a uma família feliz e a um emprego capaz de lhe assegurar sustento, seria já de si louvável. Mas a redenção de Johnson Semedo foi muito além disso: sabendo que errar é tão humano como potenciado por circunstâncias, dedicou grande parte da nova vida a lutar para que outros não trilhassem a mesma estrada.

A Academia do Johnson, por si criada, motivou dezenas de jovens da Cova da Moura e de outros bairros para o desporto e para a educação enquanto instrumentos para progredir na vida. Por eles e por elas lutou João Semedo Tavares, travado pela doença nesta terça-feira, com apenas 50 anos. Mesmo sem nunca mais ter falado com ele, acompanhando de longe a sua obra valiosa, ao receber a notícia senti a perda de quem tanta falta irá fazer aos muitos que fez serem seus.

“O meu tempo é o tempo onde estou. Para mim, o tempo é a pertinência. Estou aqui, sou preciso aqui, é o tempo que tenho”, respondeu-me há oito anos, quando lhe perguntei como conseguia conciliar trabalho, treinos, palestras e família. Assumindo todos os seus erros e partindo do princípio de que ninguém lhe podia cobrar mais nada, a sua doutrina de redenção mudou vidas e inspirou muitas.

Como a vida não tem de ser justa, Johnson passou apenas meio século neste mundo. Mas deixou um legado que persistirá. E que nos redime a todos.