Opinião

À direita, nada de novo: o vazio, só o vazio

Octávio Lousada Oliveira


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Para o melhor e para o pior, Rui Rio é a demonstração empírica de que a sabedoria popular está embebida de razão. Se o ditado nos diz que não há duas sem três, o presidente do PSD confirmou-o no fim-de-semana. Após ter “arrumado” Pedro Santana Lopes e Luís Montenegro, reafirmou o killer instinct em contendas internas ao averbar outro triunfo numas directas que pareciam “cantadas” para Paulo Rangel.

Não menorizando a reputação do inquebrantável Rio, que tantos ameaçaram mas ainda nenhum conseguiu derrubar - convém sublinhar que já é o quarto presidente mais longevo da história do PSD e o mais duradouro de todos os que não chegaram a primeiros-ministros -, começo a desconfiar da arte e do engenho dos opositores. E, de caminho, da capacidade dos que se arvoram em fazedores de reis, mas não têm mais do que vitórias morais para apresentar.

Se, em alternativa, não houver mesmo voto livre no PSD, então, os caciques que estiveram ao lado de Santana, Montenegro e Rangel serão manifestamente menos eficientes do que aqueles que rodeiam o ex-presidente da Câmara Municipal do Porto.

Ainda que saltando de paradoxo em paradoxo e de contradição em contradição, Rio montou uma ardilosa estratégia para fugir ao debate e reduzir o adversário a um empecilho à afirmação do PSD perante o país. O mesmíssimo líder que não faria campanha para dentro concedeu mais entrevistas a discorrer sobre a sua “casa” do que alguma vez fizera. O mesmíssimo líder que noutras refregas beneficiou do trabalho do chamado aparelho diabolizou, desta feita, as peças da estrutura laranja que se transferiram para a barricada contrária.

Mais: o mesmíssimo líder que estendeu a passadeira a António Costa durante quatro anos aproveitou a campanha rumo às directas para aparecer com uma nova roupagem, mais fiscalizador da acção governativa, mais afirmativo e combativo. E o mesmíssimo líder que endossou um apoio acrítico a Marcelo Rebelo de Sousa - o candidato “do centro”, não era? - transformou subitamente o Presidente na sua bête noire por ter recebido (muito mal, sublinhe-se) Rangel em Belém.

De regresso à apatia que o caracteriza desde 2018, o PSD prepara as legislativas de 30 de Janeiro. Rio tem salientado que não se desviará um milímetro do caminho que traçou e garantiu que agora, sim, ganhará as eleições. Contudo, tem sido parco no que respeita às traves-mestras de uma alternativa ao PS.

Que é feito da apologia de uma verdadeira economia social de mercado, defensora da liberdade de iniciativa, amiga do risco e do empreendedorismo, com elevada exigência no que concerne a uma concorrência justa, que premeie o mérito sem deixar os mais desfavorecidos para trás, conferindo-lhes efectivas hipóteses de ascensão social? Onde anda o discurso de libertação do indivíduo das amarras de um Estado voraz a cobrar impostos e quase mínimo na resposta que dá aos cidadãos no que toca a serviços públicos? Para onde foi remetido o ideário de uma administração pública menos pesada e, sobretudo, mais eficiente e transparente, sem unidades de decisão intermédia escolhidas sob(re) a mesa dos interesses do centrão? De que deriva a tibieza no debate sobre a excessiva capilaridade do sector empresarial do Estado?

E, na liga dos últimos, como anda e o que advoga o CDS, que execrava a direita fofinha e insinuava que Rio representava uma versão light do socialismo costista? Pois é, prostrado e mendicante por um prato de lentilhas.

Os dois partidos da direita tradicional até podem sair vitoriosos das eleições, mas aos seus eleitores-tipo pouco mais sobra que orfandade e inquietação. Digam-lhes algo de direita. Qualquer coisa de direita.

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