Opinião

A depressão de 1921: a recuperação da economia sem intervenção estatal

Diogo Barreira


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A covid-19 não criou apenas um grave problema na saúde pública. Criou, também, um grave problema na economia que, em Portugal, fruto da estagnação económica das últimas décadas, terá ainda mais impacto na vida das famílias e das empresas. Mas como poderemos sair desta crise que muitos apelidam como a mais severa dos tempos modernos de forma rápida e subtil? A esquecida e pouco falada depressão de 1921 pode dar-nos uma ajuda.

Em todos os livros de história dos alunos do 3º ciclo e secundário, não faltará certamente um capítulo sobre a Grande Depressão do século passado, iniciada em 1929. Porém, sobre a depressão de 1921 nem um parágrafo. O porquê desta não ser estudada recorrentemente não é claro, mas talvez seja porque foge à narrativa de que a intervenção estatal é a única solução para momentos de contração económica. Infelizmente, os regimes políticos recorrem regularmente à história e distorcem-na, de forma a criarem o seu próprio enredo. Lemos e ouvimos constantemente que a temida Grande Depressão americana da década de 1930 apenas conseguiu ser superada pelas fortes intervenções políticas na economia, que por sua vez levaram à prosperidade. De forma a fazer com que esta versão dos eventos se sustente, a tal depressão de 1921- 1923 é pouco falada. E não se deixe enganar, porque não é à toa. A forma como o governo americano lidou com ela arrasa as ambições dos que prometem soluções baseadas na intervenção dos governos para desequilíbrios das depressões económicas.

Comecemos pelos factos. Estávamos no ano de 1921, acabados de sair de dois dos maiores episódios históricos do século passado- a Primeira Guerra Mundial e a gripe espanhola- que levaram à morte de milhões de pessoas, quando a economia americana entrou numa profunda depressão. Os números não são tão claros como agora, mas o PIB americano terá contraído mais de 12%, o desemprego mais do que dobrou (de 5% para 12%) e os preços desabaram 18%- o maior declínio percentual em 140 anos de dados, pior do que em qualquer ano da Grande Depressão. A taxa de falência das empresas triplicou e as que se aguentaram tiveram uma queda, em média, de mais 60%. O cenário para uma década dramática estava consumado.

O leitor estará certamente a perguntar-se sobre qual a reação do presidente. Pois bem, eleito em 1921, Warren Harding foi jogar golfe. Sim, digamos que basicamente foi fazer aquilo que qualquer presidente americano gosta. Entre as suas atividades de lazer, reduziu o orçamento do governo praticamente para metade, tal como os gastos federais foram reduzidos drasticamente, mas a intervenção do governo (ou neste caso, a falta dela) não se ficou por aqui: os impostos baixaram e a dívida nacional baixou 33% neste período. O governo americano permitiu que os salários caíssem, acompanhando a tendência dos preços, fazendo com que os custos de produção das empresas estabilizassem. Ou seja, ao contrário do que era pedido pelos seus críticos, Harding deixou que o mercado se ajustasse sozinho, com a redução dos salários e dos preços. O resultado foi um sucesso. O desemprego que bateu os 12% em 1921 passou para 2,4% em 1923, atingindo o pleno emprego, dando o ponto de partida ao fenómeno conhecido por todos nós de grande prosperidade: os loucos anos 20.

Ao contrário daquilo que são as constantes soluções apresentadas pelos governos intervencionistas para recuperar a economia, desde défices orçamentais, políticas monetárias inflacionárias e gastos em obras públicas, a recuperação registada no início da década de 20 só precisou de uma coisa: que o governo atuasse de forma passiva e deixasse o mercado funcionar.

Apesar dos intervencionistas afirmarem que foi uma coincidência a recuperação económica verificar tal recuperação pela falta da ausência de estímulos fiscais e monetários, não podiam estar mais enganados. É precisamente pela falta de intervenção estatal que esta recuperação se verificou.

A depressão de 1921-1923 não precisou que o governo atuasse na economia para terminar e se verificar uma melhoria económica. Além disso, foi a que menos tempo durou das que se verificaram posteriormente que, curiosamente (ou não) tiveram sempre uma grande intervenção do estado. É costume dizer-se que a história se repete, e talvez não seja descabido retirar ilações dela para aprendermos como reagir e superar crises económicas. Vai o governo português aprende com a história e superar esta crise económica implementando as melhores políticas para o país no longo prazo? Ou, como sempre, o objectivo é de curto prazo e focado em meras conquistas eleitorais à custa do futuro de mais uma geração?

*Estudante de Direito e Gestão, membro da Iniciativa Liberal

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